Basta navegar por cinco minutos nas redes sociais para ser impacto por algum tipo de conteúdo relacionado a procedimentos estéticos. Seja em anúncios, indicações ou reflexões compartilhadas por coachs, médicos e psicólogos, a harmonização facial é um dos assuntos mais comentados na internet – e fora dela.
Ou você nunca esteve em uma roda de amigos discutindo quais procedimentos estéticos já fizeram ou têm a intenção de fazer, mesmo que num futuro incerto? Haja vista a popularidade dos procedimentos, que incluem preenchimento labial, suavização de rugas e linhas de expressão, uso de fios de sustentação e de estimuladores de colágeno, entre muitos outros, a prática já se tornou tendência mundial. Muito mais do que mero fenômeno nas redes sociais digitais, escapando às telas dos celulares e causando impactos reais.
Na economia, por exemplo, o mercado de harmonização facial gera efeitos volumosos, tanto pelo investimento dos clientes quanto pela quantidade de profissionais que veem nele uma oportunidade de negócio, movimentando, consequentemente, a geração de empregos e a capacidade empreendedora do país.
Segundo levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), o Brasil é o segundo país que mais realizou procedimentos estéticos e reparadores no mundo, em 2023, somando 8,9% do total de casos, atrás apenas dos Estados Unidos (24,1%). Mas, embora a harmonização seja encarada como uma solução menos invasiva e mais acessível, com resultados rápidos, é importante estar atento aos riscos, efeitos colaterais e cuidados necessários.
Responsável pelo Ambulatório de Cosmiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (FMRP-USP), a cirurgiã plástica Sabina Alvarez Paiva ressalta a necessidade de certos cuidados diante da popularização dos procedimentos de harmonização facial. O bom senso acaba sendo um dos principais parâmetros, tanto por parte do cliente quanto do profissional que oferece os serviços.
Além disso, como em qualquer outra prática que envolve a saúde humana, não está isenta de riscos. Por isso, a necessidade de uma avaliação criteriosa do profissional e do procedimento, antes da tomada de decisão. “Os principais riscos que destacamos são o Acidente Vascular Cerebral (AVC), as reações alérgicas, a assimetria significativa da face, cegueira, necrose da pele e infecções, nos casos mais graves”, explica a médica.

Outro cuidado importante está relacionado ao uso excessivo ou indevido de produtos e técnicas. Uma vez que a harmonização é o resultado, como o próprio nome sugere, a decisão sobre a técnica a ser utilizada, a qualidade das substâncias e a dosagem correta são fundamentais para o resultado ser o mais natural possível. Um pequeno equívoco pode resultar em uma expressão congelada ou deformidade, ou até perda da função de um músculo.
Por isso, Sabina afirma que é imprescindível buscar informações, escolher um profissional qualificado e seguir as recomendações pós-procedimento. Isso inclui, principalmente, o acompanhamento com o profissional responsável.
“Procurar um profissional qualificado, atualizado e que tenha discernimento nas indicações é essencial. Além disso, é fundamental que a clínica seja estruturada e autorizada a funcionar pela Vigilância Sanitária. E, claro, ter cuidado com os exageros”, enfatiza a cirurgiã, destacando que a ideia de um mercado lucrativo tem atraído a atenção de profissionais de diversas áreas regulamentadas para a prática e que, algumas vezes, têm apenas o lucro como objetivo.
Sabina diz que o paciente e o profissional devem discutir juntos as soluções, levando em consideração as reais melhorias que podem ser obtidas de acordo com as necessidades e características físicas de cada pessoa.
Preços acessíveis
Atrelados a fatores culturais e sociais, os procedimentos de harmonização facial também se tornaram mais populares devido aos preços acessíveis. Os custos variam, dependendo do profissional, da região onde ele atua e dos materiais que utiliza. Mas, em média, o preço de um pacote pode custar entre R$ 1,5 mil e R$ 4,5 mil, ou até um pouco mais, caso seja necessária a combinação de procedimentos.
Outros fatores que influenciam na acessibilidade dessa prática são: o aumento do número de clínicas especializadas e a adesão de profissionais da saúde habilitados, como a cirurgiã dentista Isabela Canto, que percebeu nesse mercado uma oportunidade de expandir sua atuação. “Por ser uma área de competência do cirurgião dentista, identifiquei uma chance de crescimento significativo desde 2017”, afirma a profissional, que possui clínica em Marília (SP).
Isabela conta que, nos últimos anos, os homens também passaram a buscar pelos procedimentos estéticos, uma evidência de que a população, como um todo, está cada vez mais preocupada com a aparência. Estudo realizado pela farmacêutica Allergan, em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e com a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), confirma essa percepção.
Em 2023, 82,5% dos homens brasileiros disseram estar abertos a realizar algum procedimento estético. Entre os mais comuns no público masculino estão a aplicação de toxina botulínica para suavizar linhas de expressão, a diminuição das olheiras, o aumento da mandíbula e do contorno da face, e a aplicação de lentes nos dentes, técnica conhecida como harmonização de sorriso.
“Hoje, percebo que a população está mais informada. Então, as pessoas procuram pelos procedimentos e sabem os nomes, os resultados que esperam obter com cada um deles. É uma área que evoluiu muito, está totalmente diferente do que era no começo, quando o público que mais buscava e conhecia os procedimentos era restrito, majoritariamente formado por mulheres”, aponta Isabela.
Uma percepção compartilhada pela cirurgiã plástica de Ribeirão Preto. “Antes, as pessoas procuravam mais a toxina botulínica e o ácido hialurônico. Hoje, elas procuram a associação de outros procedimentos e tecnologias, o que acaba fazendo mais sentido, porque não adianta só preencher a face, precisamos dar firmeza para a pele e tratar como um todo”, diz Sabina.
Ambas também concordam que o mercado deve continuar crescendo e que essa realidade deve estar alinhada a um constante exercício de conscientização da população. “A tendência é que a procura continue crescendo, porque já faz parte da rotina das pessoas, como ir a um salão de cabeleireiro”, destaca Isabela.
Obsessão x Equilíbrio
Cronograma capilar, manutenção de unhas, preenchimentos faciais, micropigmentação, tratamentos antienvelhecimento, rinomodelação… O autocuidado nunca esteve tão em alta e, com o mercado da beleza aquecido, não faltam opções para quem busca ter uma aparência mais jovem ou mesmo fazer as pazes com o espelho. Influenciado por – e influenciando – aspectos econômicos, comportamentais, de saúde e bem-estar, o tema chama a atenção para o dilema entre obsessão e equilíbrio.
De acordo com a psicóloga clínica Dariene Castellucci, a preocupação com a aparência não pode se tornar uma nociva fixação por padrões de beleza, colocando a qualidade de vida – e de saúde – em segundo plano. “Muitas vezes, deixa de ser, de fato, autocuidado e se transforma em uma busca compulsiva pelo rejuvenescimento, que desencadeia muitas consequências. E a frustração é uma delas”, alerta.
Em um panorama geral, esta frustação e falta de autoidentificação estão associadas a distúrbios psicológicos que, quando não tratados, podem culminar em transtornos psíquicos. Segundo estudo da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), transtornos mentais, como a depressão, afetam cerca de 300 milhões de pessoas no mundo. O Brasil possui o maior índice relacionado a transtornos de ansiedade: 18,6 milhões de pessoas diagnosticadas, ou seja, 9,3% da população.
Estímulos de comparação e depreciação da própria imagem têm relação direta com a insatisfação, sendo, em muitos casos, o estopim para a busca por procedimentos estéticos. O envelhecimento, que é natural da espécie humana, está sendo encarado como vilão.
“Nosso corpo e nossa pele passam por transformações naturais e o autocuidado deve estar relacionado ao envelhecimento com qualidade. O limite entre a qualidade de vida e os padrões de beleza está quando esses últimos começam a nos restringir e privar de vivenciar plenamente”, afirma Dariene.
A psicóloga acrescenta que o autocuidado vai muito além de embelezar o lado externo. A saúde e o bem-estar estão relacionados ao alinhamento entre físico e mental, sem culpa por não se encaixar em um determinado padrão ou pressão por não acompanhar as tendências do mercado. Nesse sentido, é fundamental buscar o entendimento e as raízes das insatisfações.
“Quando temos consciência de que o padrão de beleza se alimenta da insatisfação, conseguimos nos blindar. Sair ileso a isso é impossível, afinal de contas, somos bombardeados o tempo todo. Mas, quando temos a clareza de que é impossível atingir a perfeição e que a qualidade de vida é mais importante do que isso, a gente entende qual é o nosso lugar dentro dessas imposições”, conclui.

Gostou do conteúdo? Clique aqui e leia mais sobre o cenário econômico brasileiro na Edição 45 da Revista Cocred Mais.
E para ficar sempre atualizado sobre as novidades, siga a Sicoob Cocred no Instagram, Facebook e LinkedIn.