Edivaldo Del Grande, presidente da Ocesp, analisa o impacto do “Ano Internacional das Cooperativas”

Edivaldo Del Grande, presidente da Ocesp, analisa o impacto do “Ano Internacional das Cooperativas”

Em 2025, o cooperativismo vive um momento emblemático, no centro dos holofotes. Ao declarar o “Ano Internacional das Cooperativas”, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece oficialmente o papel estratégico que o modelo cooperativista desempenha na construção de um mundo melhor. Essa visibilidade mundial chega em um momento oportuno para o cooperativismo brasileiro, que soma mais de 23,4 milhões de cooperados, o equivalente a 11% da população do país, segundo o Relatório Anual do Cooperativismo de 2024.

Outro dado que demonstra a força do setor é o número de empregos gerados: em 2023, mais de 550 mil pessoas atuavam diretamente em cooperativas no Brasil. Mas o impacto do cooperativismo vai além dos números econômicos. Ele está diretamente conectado ao “interesse pela comunidade” — princípio que se alinha aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Desde 2015, os ODS orientam ações globais para erradicar a pobreza, proteger o planeta e promover a prosperidade até 2030 e as cooperativas têm se mostrado parceiras-chave nesse processo.

Um exemplo é o Dia de Cooperar, o principal programa de responsabilidade social do movimento, que dá visibilidade às ações de impacto socioambiental desenvolvidas por cooperativas de todo o país. Em 2023, o Dia C mobilizou mais de R$ 17 milhões em iniciativas que beneficiaram cerca de 3 milhões de pessoas, reforçando a capacidade das cooperativas de implementar mudanças reais nas comunidades onde atuam.

Apesar dos avanços, o movimento ainda enfrenta desafios históricos, como o desconhecimento de grande parte da população e a necessidade de ampliar a presença de jovens e mulheres, tanto no quadro de associados quanto nos cargos de liderança. A intercooperação entre os diferentes ramos e a conexão com temas como sustentabilidade e inovação tecnológica também estão no centro das discussões.

Para analisar este cenário e projetar as oportunidades que se abrem para o setor, a COCRED Mais conversou com Edivaldo Del Grande, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp), uma das principais lideranças do cooperativismo no país. Com mais de duas décadas de atuação, Del Grande defende que esse é o momento ideal para o cooperativismo “fazer barulho” e assumir o protagonismo que lhe cabe. “Temos que soltar rojão, chamar a atenção para o bem que o cooperativismo proporciona para a sociedade”, afirma

Como avalia o momento atual do cooperativismo no Brasil? Na sua opinião, os brasileiros já conhecem bem e estão aderindo cada vez mais ao movimento?

Edivaldo Del Grande | Se pensarmos em adesão ao cooperativismo, nos últimos anos avançamos bem. Lembro-me que há alguns anos éramos apenas 5%. Apesar do aumento na divulgação, as pessoas ainda confundem cooperativa com entidade filantrópica, como ONG ou outro tipo social. Nos grandes centros urbanos, dificilmente vinculam cooperativa a um negócio.

Como o cooperativismo brasileiro é visto no cenário internacional e que experiências de outros países podemos aproveitar para crescer ainda mais?

Edivaldo Del Grande | O cooperativismo no Brasil é bem organizado, tem representação única, capitaneada pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o que ajuda em muitas coisas. Principalmente quando temos que conversar com os poderes públicos. Outros países reconhecem essa nossa força uníssona. Também temos grandes cases de sucesso no ramo agropecuário, no crédito e no cooperativismo de saúde. Por exemplo, a Unimed e a Uniodonto, são os maiores sistemas cooperativos de saúde do mundo. Mas, como disse anteriormente, ainda falta mais adesão da população. Há países em que 50% ou mais da população é cooperada.

De que forma os poderes Executivo e Legislativo podem contribuir efetivamente para o fortalecimento do cooperativismo no país?

Edivaldo Del Grande | Costumo dizer que a política atravessa o nosso caminho todos os dias, seja para o bem ou para o mal. Se deixassem a gente trabalhar em paz, já seria uma grande ajuda. Não queremos benesses, apenas que deixem nosso caminho livre. A Reforma Tributária é um desses exemplos em que podem nos destruir. Se não fossem o engajamento e a união de todos – aqui me refiro à OCB, Ocesp e cooperativas –, talvez hoje estivéssemos amargando uma grande derrota: a tributação do “ato cooperativo”. Felizmente, conseguimos reverter o caos. Por outro lado, os governos e os legislativos deviam criar mais políticas públicas de incentivo ao cooperativismo, uma vez que nosso setor é um potente instrumento para o desenvolvimento econômico com mais justiça social.

Quais os principais marcos do cooperativismo brasileiro nas últimas décadas? Como esses fatos impactaram as cooperativas e os cooperados?

Edivaldo Del Grande | Podemos citar a criação dos bancos cooperativos, uma batalha que parecia não ter fim. Mas tenho uma predileção pela criação do “Sistema S” das cooperativas, em 1998. Além de não onerar em nada as cooperativas, uma vez que elas já recolhiam para outros “S”, o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) trouxe suporte e subsídios para melhorar a gestão dos empreendimentos. Diagnósticos, trilhas de capacitação, intercâmbios e tantos outros programas do Sescoop revolucionaram o cooperativismo no Brasil. Posso afirmar que o Sescoop é um divisor de águas.

O cooperativismo de crédito é um dos ramos que mais cresce no país. A que se deve esse resultado? Como esse segmento pode continuar expandindo?

Edivaldo Del Grande | Creio que, aos poucos, a população está acordando. As pessoas estão vendo que as cooperativas oferecem os mesmos produtos e serviços dos bancos tradicionais e cobram muito menos. Além do que, ainda devolvem as sobras do ano. Durante a pandemia, período crítico em que os empreendimentos precisaram de crédito para continuar suas atividades, o cooperativismo se destacou como maior financiador. Estamos num bom caminho. Acabei de vir da conferência mundial das cooperativas de crédito, na Suécia. Observei, com orgulho, o tamanho da delegação brasileira frente aos outros países. Quando a nossa bandeira desfilou na abertura, uma multidão se levantou e aplaudiu. Repito, estamos num bom caminho. O ramo crédito é o carro-chefe do cooperativismo. A maioria dos cooperados hoje, no Brasil, é do crédito. As cooperativas de crédito também estão impulsionando cooperativas de outros ramos, com suas linhas interessantes e mais justas.

A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2025 como sendo o “Ano Internacional das Cooperativas”? Qual a importância dessa medida?

Edivaldo Del Grande | É a segunda vez que a ONU estabelece o Ano Internacional das Cooperativas. Isso já ocorreu em 2012 e, coincidentemente, com o mesmo tema: “Cooperativas constroem um mundo melhor”. A ONU sabe da importância das cooperativas para o desenvolvimento local, para diminuir o abismo social, para incluir as pessoas. As Nações Unidas estão insistindo no cooperativismo como um meio de desenvolvimento mais justo, um instrumento para a democracia e a paz, como diz o nosso líder Roberto Rodrigues. Mas precisamos aproveitar melhor essa onda. Temos que “soltar rojão”, fazer barulho, chamar a atenção para o bem que o cooperativismo proporciona para a sociedade.

Quais os principais desafios que o cooperativismo deve enfrentar nas próximas décadas para manter sua sustentabilidade e relevância?

Edivaldo Del Grande | Entramos na era da Inteligência Artificial. Com certeza, as cooperativas não podem ficar fora disso. Mas também não podem perder sua essência, seu DNA, seus valores. As relações humanas, a união e a cooperação entre as pessoas, tudo isso é fundamental para a continuidade do cooperativismo. Temos que dosar na medida para não perder a mão. Sobre outros desafios, posso citar a questão da sucessão e da participação de mulheres. Vejo que ainda precisamos avançar muito nesses quesitos.

Tornar-se mais atrativo aos jovens também é um obstáculo ao cooperativismo? Na sua opinião e experiência, como é possível vencer esse desafio?

Edivaldo Del Grande | Grande parte dos jovens de hoje tem uma relação íntima com a tecnologia e, também, está mais ligada a questões de cunho social, ambiental e outros valores próximos do cooperativismo. Somos, naturalmente, um caminho atrativo e promissor para eles. Creio que devemos envolvê-los mais nas atividades da cooperativa. Abrir espaço para os jovens em comitês, reuniões e até nos conselhos. Além do que, penso que devemos estar onde a juventude se comunica, como nas redes sociais. Devemos participar falando a língua deles. Também entendo que noções básicas do cooperativismo deveriam ser passadas nos ensinos fundamental e médio das escolas.

O estado de São Paulo é referência no cooperativismo brasileiro. Quais fatores explicam o sucesso do movimento paulista?

Edivaldo Del Grande | São Paulo sempre foi a locomotiva do país, não poderia ser diferente no cooperativismo. Temos mais de mil cooperativas registradas na Ocesp, de todos os ramos e segmentos. Se somarmos os cooperados, chegamos perto de 4 milhões. O cooperativismo é uma forma de tornar grande o pequeno empreendedor. A união faz a força e aumenta o potencial competitivo. Para dar suporte ao tamanho e qualidade do nosso cooperativismo, temos, no Sistema Ocesp, uma estrutura física e um quadro funcional adequados. Recentemente, reformamos nossa sede, na capital paulista, melhorando as condições para cursos e eventos diversos, assim como para a interação com autoridades e dirigentes de entidades de interesse, o que tem feito a diferença para nossas cooperativas.

Olhando para os fatos presentes e para as perspectivas futuras, quais as janelas de oportunidades para o cooperativismo?

Edivaldo Del Grande | Vivemos guerras e tensões diplomáticas em muitos lugares do mundo. Ainda temos fome e índices baixos de desenvolvimento em muitas localidades. Vou aqui plagiar a ONU: “Cooperativas constroem um mundo melhor”. As oportunidades são imensas para empreendimentos que valorizavam a ajuda mútua, a cooperação, a responsabilidade coletiva, a democracia e a equidade. O mundo clama por instituições que pregam e agem dessa maneira. Todos estão preocupados com o futuro. As cooperativas são um caminho para um futuro próspero, de inclusão, de paz e felicidade para as pessoas. Estamos com a faca e o queijo na mão.

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