Modelo agroflorestal integra meio ambiente, impacto social e gestão consciente

Modelo agroflorestal integra meio ambiente, impacto social e gestão consciente

Quem vê de fora pode até pensar que se trata de um sítio como qualquer outro. Árvores frutíferas, solo fértil, plantações diversas – tudo o que se espera de uma propriedade rural. Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que, naquela área às margens da Rodovia Anhanguera, em Cravinhos (SP), o que realmente se cultiva é conhecimento. Embora produza alimentos orgânicos e plantas medicinais, o diferencial do espaço está no sistema de produção adotado: o local é uma agrofloresta. Por isso, ganhou o apelido de “Sitião Agroflorestal”.

Regenerando o solo, preservando a fauna e, principalmente, formando pessoas, o sítio tem como principal colheita uma educação transformadora. Desde 2014, é por meio do compartilhamento de saberes que o espaço capacita e inspira novos olhares sobre o cultivo da terra. Polo de educação e regeneração, o sítio oferece vivências que inspiram agricultores, estudantes e curiosos a enxergarem a produção rural sob outra perspectiva.

“Hoje, nosso foco está em dar um bom exemplo para que as pessoas também possam aplicar esse conceito em suas produções. Expandir os multiplicadores da ideia, expandir o trabalho além do sítio”, explica o agricultor Vinícius Biagi Antonelli, idealizador do projeto. Antonelli vem de uma família tradicionalmente ligada ao agronegócio, mas seguiu um caminho próprio, combinando conhecimentos adquiridos ao longo da vida com ideias trocadas entre amigos e familiares, encontrando no Sistema Agroflorestal (SAF) a base para transformar o sítio em um modelo de regeneração e abundância.

Ele prefere chamar esse sistema de “floresta agrícola”, por um motivo simples: “A floresta deveria vir antes, porque é isso que estamos fazendo. Estamos fazendo floresta. A floresta não pode estar dissociada da produção, porque ela é sinônimo de produção. Ela é o melhor uso possível da energia que o planeta nos entrega”, explica o agricultor.

Mas, afinal, o que são Sistemas Agroflorestais? São formas de cultivo que integram, de maneira planejada, árvores, arbustos, culturas agrícolas e até a criação de animais em uma mesma área. Essa combinação pode acontecer ao mesmo tempo ou de forma sucessiva ao longo de um período.

A proposta é ir além da produção e restaurar ecossistemas, diversificar a renda e o uso da terra, capacitar melhor a mão de obra local e proteger recursos como solo e água. Diferente dos modelos tradicionais, como a monocultura, o SAF cria um ambiente mais sustentável, permitindo que a terra trabalhe em harmonia com seus próprios ciclos naturais.

Na prática, funciona assim: enquanto uma lavoura convencional utiliza 100% da capacidade do solo, os sistemas agroflorestais chegam a usar até 200% da capacidade produtiva da área. Isso porque aproveitam tanto o solo quanto o espaço aéreo. Culturas rasteiras são plantadas ao nível do chão; arbustos e frutíferas ocupam o espaço intermediário; e árvores de médio e grande porte compõem os estratos superiores.

Essa organização em camadas permite que a energia do sol seja absorvida em diferentes níveis, maximizando o uso da luz, da água e dos nutrientes disponíveis. O resultado é um sistema onde tudo se aproveita, desde as folhas que caem, para enriquecimento do solo, às raízes de diferentes profundidades, que ajudam na fertilidade da terra.

O modelo é chamado de produção regenerativa já que, ao promover uma cobertura permanente do solo, o SAF ajuda a controlar a erosão e melhora a capacidade de retenção de água. A matéria orgânica aumenta, a biodiversidade se intensifica e o equilíbrio ecológico é regenerado. Além disso, esse tipo de manejo permite uma produção contínua, devido à diversidade das culturas.

O conceito foi fortalecido internacionalmente pelo trabalho do suíço Ernst Götsch, que nos anos 1970 começou a experimentar associações de culturas diversas, como milho com feijão, trigo com ervilha, framboesa com macieira. Ele passou a enxergar o sistema agrícola como um organismo vivo, no qual cada planta exerce uma função e contribui para o todo. Sua técnica, conhecida como Agrofloresta Sucessional, respeita a ordem natural das espécies e ensina que o segredo da abundância está na cooperação entre os seres e na sucessão ecológica planejada.

Essa abordagem inspira o trabalho de Antonelli no “Sitião Agroflorestal”, onde não apenas planta árvores, mas semeia um novo modo de pensar a agricultura. Para o agricultor, o solo precisa de nutrientes, mas a sociedade precisa, urgentemente, de conhecimento. “Eu falo que o nosso insumo, a nossa produção, é o conhecimento. Antes de mais nada, a gente precisa gerar conhecimento. A disciplina agroflorestal precisa estar nas escolas, nas universidades, precisa estar na vida do brasileiro de maneira teórica também. Porque falta teoria, falta filosofia para a gente encarar as dificuldades da agricultura propriamente dita”, afirma.

Da floresta para a mesa

A partir do conhecimento produzido no “Sitião Agroflorestal”, os alimentos colhidos se tornam produtos variados que vão da floresta à mesa dos consumidores. O que se colhe ali, entre frutas, hortaliças, raízes, ervas medicinais e grãos, é transformado em biscoitos, infusões, kits pré- -treino e shots que auxiliam na imunidade, digestão, energia e foco. Para levar esses alimentos a mais pessoas e ampliar o impacto da produção, surgiram duas frentes complementares do projeto: o Viva Regenera e o Viva Floresta.

O Viva Regenera é a marca que representa a comercialização consciente do que é produzido no sítio. Já o Viva Floresta é o e-commerce oficial do negócio, que amplia esse movimento por meio da entrega dos produtos. E o trabalho desenvolvido por Antonelli não acontece apenas em Cravinhos (SP). Um segundo sítio, localizado em Terra Roxa (SP), integra essa rede de regeneração. Lá, os mesmos princípios são aplicados: regeneração, formação e capacitação de pessoas.

Produção com propósito

É nesse ponto que a atuação do “Sitião Agroflorestal” conecta-se diretamente com os princípios ESG — sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança. Por ali, esses conceitos não são apenas metas a alcançar, mas estratégias que moldam cada escolha. A terra é cultivada com consciência ecológica, as pessoas são parte do processo e a gestão é guiada por valores que unem produtividade, ética e transformação social.

No pilar ambiental, o sítio é um exemplo de regeneração ativa do ecossistema. O uso do SAF por si só transforma áreas degradadas em ambientes vivos e produtivos, configurando-se uma solução concreta para restaurar o equilíbrio climático e ecológico do planeta. Mas o cuidado com a terra vai além do cultivo. A estrutura do Sitião está desenhada para otimizar a energia natural, usando a luz do sol em múltiplos estratos e devolvendo ao solo, por meio da matéria orgânica, tudo o que a própria floresta disponibiliza. Trata-se de uma agricultura que retribui o que a natureza oferece. No aspecto social, o impacto é igualmente planejado.

O espaço foi concebido como uma escola a céu aberto, voltada para a formação de agricultores, estudantes e comunidades. As atividades envolvem desde o ensino sobre plantas medicinais e alimentícias, até oficinas práticas com crianças, pais e educadores. Tudo isso cria um ambiente de aprendizado coletivo e aproxima famílias do conhecimento sobre o que consomem e sobre o que a terra pode oferecer.

“A gente tem que educar as crianças, os pais, a respeito de como usar produtos como a cúrcuma, o gengibre, o salsão… Tem muita coisa que as pessoas não conhecem”, explica o agricultor. “É formação de opinião, é educação. O retorno é muito positivo, principalmente dos pais, que se impressionam por ver os filhos em contato com tudo isso e perceberem o quanto sabiam pouco a respeito”, completa. Segundo o agricultor, a alegria das crianças ao participar das vivências no campo não tem preço.

Já o componente de governança se reflete na forma como o Sitião organiza seus processos internos. Para Antonelli, a agrofloresta não pode ser vista apenas como um método de cultivo, mas um modelo de gestão. “A produção agrícola no Brasil, de uma maneira geral, passando do extrativismo à monocultura, é bastante carente de projetos, de processos, de governança mesmo. Então, a gente procura trabalhar desde a comunicação interna, o engajamento e capacitação”, afirma.

Na visão dele, é fundamental compreender que o ESG, no contexto agroflorestal, não se limita a uma métrica empresarial ou um selo de sustentabilidade. “É uma governança social para usar o meio ambiente. É uma governança de pessoas. Então é isso que a gente faz quando fala em ESG”, finaliza.

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