Das lavouras às cafeterias: café conecta economia, cultura e desenvolvimento no Brasil

Das lavouras às cafeterias: café conecta economia, cultura e desenvolvimento no Brasil

“Um cafezinho, por favor”. O pedido atravessa as manhãs, as tardes e se estende pela noite. Na Padaria Panini, em Ribeirão Preto (SP), o acompanhamento pode até mudar, mas o café permanece como presença constante na maioria dos pedidos. Independentemente do horário, a bebida ocupa lugar central na rotina dos clientes. “A gente vende, em média, 100 xícaras de café por dia”, conta a empresária Nemora Gimenes Maschietto.

Entre as preferências de quem consome, o expresso lidera com folga. Preparado em máquina específica, na qual a água quente passa sob alta pressão pelo café moído, ele resulta em uma bebida mais encorpada, de sabor intenso e marcada pela crema, a espuma densa que se forma na superfície. Um clássico que atravessa gerações e permanece como protagonista de diferentes ritos do cotidiano, da conversa entre amigos às reuniões de trabalho, passando pelos encontros que transformam o café em pretexto para estar junto.

Essa multiplicidade de usos também se reflete no perfil do público que frequenta a Panini. “São vários perfis diferentes de consumidor”, explica Nemora. “No final de semana, o café já vira lazer para as famílias, principalmente de manhã. Durante a semana, o café é um item clássico numa mesa de negócio. A gente recebe muito consumidor que pede um expresso, uma água e vai tratar de negócios, apresentar projeto, fazer relacionamento”. Segundo ela, o consumo se adapta ao momento. “Durante a semana, o café traz esse vínculo comercial entre as partes. No final de semana, ele está mais ligado à confraternização.”

O hábito cotidiano observado no balcão da Panini é um fenômeno nacional. O café é a segunda bebida mais consumida no Brasil, atrás apenas da água. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), cada brasileiro consome, em média, 1.430 xícaras por ano. Considerando o volume total, o mercado interno brasileiro supera 21,9 milhões de sacas anuais, o que coloca o país como o segundo maior consumidor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. São números que ajudam a explicar por que o café ultrapassa a condição de produto agrícola e se consolida como elemento cultural, social e econômico.

Nemora Maschietto, cooperada COCRED desde 2019

A presença do café na história do país não é novidade. Foi ele que impulsionou o surgimento de cidades, moldou paisagens e sustentou economias inteiras, especialmente no interior paulista. O chamado ciclo do café ficou para trás, mas seu legado permanece vivo, agora ressignificado. O consumo do grão deixou de ser apenas um hábito automático do dia a dia para se transformar em experiência e estilo de vida.

Nas grandes e médias cidades, a expansão das cafeterias especializadas acompanha essa mudança. O café preto, com ou sem açúcar, ainda reina absoluto nas mesas brasileiras, mas divide espaço com novas formas de preparo, combinações e rituais de consumo. Tomar café virou pausa, encontro e identidade. Não por acaso, a bebida passou a ocupar espaço nas mesas de jovens. Estudos recentes apontam uma mudança consistente nos hábitos da Geração Z, que vem reduzindo o consumo de bebidas alcoólicas e ampliando a preferência por opções associadas ao bem-estar, à funcionalidade e à convivência cotidiana.

Para o economista José Rita Moreira, consultor econômico e sócio do Grupo BLB, trata-se de uma mudança estrutural. “Não é um modismo. É uma alteração de preferência que combina saúde, experiências e conveniência, fatores que deslocam parte do consumo social do álcool para bebidas funcionais e para o café cotidiano”, afirma. Segundo ele, esse novo padrão de consumo ajuda a explicar por que o café passou a ocupar um papel simbólico mais amplo. “Uma parcela significativa da geração Z consome café diariamente e prefere produtos customizados, novas experiências de consumo e conveniência”, diz.

Na prática, o hábito torna-se um pequeno luxo cotidiano. Não é à toa que a expressão “café superfaturado” ganhou espaço nas redes sociais. Longe de se referir apenas ao preço ou de ser uma crítica contundente, o termo passou a simbolizar, de forma bem-humorada, a compra de uma experiência, de uma pausa no meio do dia, de um momento de conexão. Um gesto simples, mas carregado de valor subjetivo.

De volta ao campo

Se nas cafeterias o café se revela protagonista com aromas, cores e sabores diversos, é no campo que essa história começa de fato. Voltar às lavouras é essencial para entender como o consumo urbano se sustenta em decisões técnicas, planejamento e trabalho contínuo de produtores que lidam com ciclos longos, riscos climáticos e exigências cada vez maiores do mercado.

Muito antes de uma xícara de café chegar às mãos do consumidor, o grão atravessa gerações e carrega histórias que ajudam a explicar por que essa bebida se tornou uma paixão nacional. No interior de Minas Gerais, a trajetória do Grupo Senju se confunde com a própria história da cafeicultura no Brasil. Carlos Eduardo Senju, hoje à frente do negócio, representa a terceira geração de uma família que atravessou oceanos em busca de oportunidades.

Seu avô chegou ao país ainda jovem, trazendo na bagagem o conhecimento agrícola aprendido no Japão e a promessa de prosperar em terras distantes. A realidade encontrada foi dura. O trabalho começou nas lavouras de café, longe da ideia de sucesso imediato. “Quando chegou no Brasil, ele viu que a realidade aqui era trabalhar nas lavouras de café. Não era nada do que ele esperava”, conta Senju. Foi ali, no campo, que o saber acumulado começou a se transformar em diferencial. “Ele percebeu que algumas lavouras não conseguiam se desenvolver muito bem e começou a aplicar o conhecimento que trouxe do Japão.”

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O que era apenas força de trabalho passou a se tornar referência. As fazendas começaram a produzir melhor, o nome da família ganhou reconhecimento e o primeiro pedaço de terra foi conquistado. Ao longo do tempo, vieram as mudanças de região e de cultura, até a consolidação de um modelo produtivo baseado na integração entre pecuária e cafeicultura. “A pecuária gerava o esterco, a gente usava o esterco na lavoura de café”, explica. O manejo ecológico, sustentado por compostagem e redução do uso de químicos, antecedeu em décadas um debate que hoje ocupa o centro da agenda ambiental.

Foi esse legado que Senju levou para a universidade ao escolher a agronomia como caminho. Ainda jovem, ele saiu da fazenda com um propósito claro. “Eu fui com a ideia de fazer um café natural, uma cafeicultura orgânica”, conta. A princípio, o projeto englobou outras culturas como teste, mas logo ficou evidente que era mesmo o café que reunia tudo o que a família buscava. “A gente precisava trabalhar uma cultura que valorizasse o capricho do pé até a ponta final. A melhor cultura que imaginamos naquele momento foi o café.”

A partir de 2011, o grupo ampliou suas lavouras e passou a investir fortemente em inovação. Foram implantados cerca de 70 mil pés de café em um sistema de cultivo diferenciado. A busca por conhecimento levou Senju ao exterior. “Em 2018, eu passei uma temporada em Israel aprendendo nutrição, irrigação e como manejar a cultura com a menor quantidade possível de água”, relata. O aprendizado resultou em um sistema de precisão que fornece água e nutrientes conforme cada estágio da planta. “A gente conhece muito bem cada estágio fenológico do café.”

Carlos Eduardo Senju, cooperado da COCRED desde 2022

Esse salto técnico abriu caminho para o comércio exterior e para um posicionamento único no mercado. Em 2018, o Grupo Senju exportou seu primeiro lote para o Japão, dando início a uma parceria que se fortaleceu ao longo dos anos. “Começamos a fazer um café com o mínimo possível de uso de defensivos agrícolas para atender uma necessidade do Japão”, explica. Hoje, parte dessa produção é destinada não apenas à bebida, mas também à indústria farmacêutica e cosmética. “Esse grão não é analisado sensorialmente, ele é analisado via molecular. Se atender aos padrões necessários, ele vai para essas indústrias de alto padrão.”

Com 23 variedades cultivadas e cerca de 30 mil sacas exportadas por ano, o grupo dialoga com diferentes paladares e culturas ao redor do mundo. “Cada continente gosta de um tipo de café”, diz Carlos, ao explicar por que a diversidade é estratégica. “São números expressivos que, às vezes, as pessoas não conseguem dimensionar”, afirma, ao relevar, de forma comparativa, que o grupo produz anualmente o equivalente a mais de 220 milhões de xícaras de café.

Referência no mercado

Na outra ponta dessa mesma cadeia, Gabriel Alves de Oliveira acompanha uma transformação semelhante, mas a partir do contato direto com o consumidor e do controle rigoroso de cada etapa do processo. Seu olhar, próximo da produção, da seleção dos grãos, da torra e da comercialização, revela como o café deixou de ser apenas um hábito automático para se tornar escolha consciente. “O café é uma fruta. Na hora que a gente consome, a gente está bebendo o pó da semente. Para ele chegar nesse ponto, passa por muitos processos”, explica.

A história da família com o café começa antes mesmo da marca existir. Os pais de Oliveira chegaram à região da Alta Mogiana em 1984, ainda trabalhando com gado. “Eles compraram a área sozinhos. Não tinha café ainda. O café veio depois, quando compraram uma propriedade vizinha que já tinha estrutura e lavoura”, relembra. A partir daí, o interesse virou paixão. “Eles começaram a estudar café, entender que existiam diversos tipos, diversas qualidades. Foi quando entraram de vez nesse meio.”

O maior investimento em estrutura veio em 2001, com a implantação de uma unidade de rebenefício, etapa voltada ao refinamento do café de acordo com as especificações do comprador, garantindo melhor classificação dos grãos. Com a nova estrutura, a família passou a participar de concursos de qualidade. “No primeiro concurso que participamos, já ganhamos. E aí nunca mais paramos.” Com o reconhecimento, vieram também novas oportunidades. A exportação começou em 2006, após a visita de um cliente estrangeiro interessado em comprar direto da fazenda. “Foi quando a gente percebeu que tinha demanda lá fora pelos cafés da Alta Mogiana.”

No ano seguinte, a criação da exportadora consolidou esse movimento, com um objetivo claro. “A ideia era levar os cafés da Alta Mogiana para os melhores mercados, para os países desenvolvidos”. Hoje, esse trabalho alcança 16 países e envolve não apenas a produção própria, mas também cafés de outros produtores da região.

Gabriel Alves de Oliveira, cooperado da COCRED desde 2012

Para Oliveira, esse novo momento do mercado está diretamente ligado à mudança no perfil do consumidor. “As pessoas passaram a buscar entender origem, método, qualidade. Café não é tudo igual.” Ele explica que a produção funciona como uma pirâmide, em que os cafés mais raros e complexos ocupam o topo. “Os melhores cafés têm pouca quantidade. Um café de 90 pontos, em uma escala de classificação que vai até 100, por exemplo, talvez renda cerca de 100 sacas em um universo de milhões.”

Essa busca exige cuidado extremo em cada etapa, da colheita à xícara. “Não existe máquina que colhe o café no ponto ideal. Então a gente trabalha muito o pós-colheita para padronizar e potencializar os frutos”. A torra, segundo ele, é decisiva. “Não adianta produzir tudo perfeito se quem torra estraga o café. Café muito torrado não é café forte, é café queimado”. Por isso, investir em profissionais capacitados faz parte da estratégia. “Existe muita mão envolvida até o café chegar na xícara. A gente precisa garantir que nenhuma etapa comprometa o resultado.”

É justamente essa soma de decisões, pessoas e cuidados que faz do Café Labareda uma referência no mercado, acumulando premiações, aumentando a variedade e apresentando crescimento exponencial ano após ano. “A nossa missão é levar sabores e aromas para os clientes. Entregar uma qualidade que a pessoa normalmente não encontra.”

Desafios e projeções

O ano de 2025 consolidou um dos ambientes mais complexos da última década para o setor cafeeiro. Pressões sobre o comércio internacional, custos logísticos elevados, oscilações cambiais persistentes e impactos climáticos tornaram o planejamento mais sensível ao risco. Ainda assim, o café demonstrou resiliência, sustentado por uma demanda nacional e internacional consistente.

O Brasil segue como o maior exportador mundial de café, responsável por cerca de 40% da oferta global, com embarques que superam 39 milhões de sacas por ano. Estados Unidos e Alemanha permanecem entre os principais destinos, reforçando a importância do setor para a balança comercial e para a geração de renda em regiões produtoras.

Segundo o economista José Rita Moreira, os efeitos do choque tarifário internacional já se fizeram sentir ao longo de 2025 e tendem a produzir impactos acumulados em 2026. “Uma estimativa oficial citada por análises recentes aponta para um impacto direto moderado sobre o PIB, da ordem de décimos de ponto percentual, mas alerta para riscos de segunda ordem, como choques de confiança, restrição de crédito e maior volatilidade”, afirma.

Na avaliação do economista, o cenário para 2026 combina crescimento contido e pressões setoriais específicas. “As projeções macro tendem a combinar crescimento real moderado, inflação ainda resiliente em cadeias afetadas por tarifas e risco de desaceleração do investimento externo em segmentos diretamente atingidos pela perda de competitividade de preço”, explica.

Outro ponto de atenção está no descompasso entre demanda e capacidade produtiva. Para José Rita, quando esse equilíbrio se rompe, os efeitos se espalham rapidamente pela cadeia. “Quando a demanda supera a oferta, surgem riscos no curto prazo, como aumento de preços, pressão sobre torrefadores e consumidores finais, além de risco logístico e de ruptura de contratos”, diz. No horizonte mais longe, ele alerta para desafios estruturais. “Pressões para aumentar volume rapidamente podem levar à erosão do padrão de qualidade e a um subinvestimento em tecnologia e adaptação climática.”

José Rita Moreira, economista

Esse contexto reforça o caráter cíclico do café e a necessidade de decisões estruturais mesmo em momentos favoráveis de preço. O economista destaca que a resposta passa por investimento e coordenação. “O caminho para reduzir esses riscos passa por estímulo a investimentos em irrigação e variedades resilientes, melhorias na infraestrutura logística, linhas de crédito específicas para conservação de estoques e incentivos à agregação de valor”, afirma.

É justamente nessa lógica que a dimensão econômica do café se conecta ao impacto social. A solidez da atividade se traduz na capacidade de sustentar decisões de longo prazo no campo. No caso do Café Labareda, essa visão extrapola a produção. Desde os anos 2000, a família investe em iniciativas estruturadas de alfabetização e educação, partindo da convicção de que produtividade, renda e desenvolvimento humano são indissociáveis. A criação de uma escola própria erradicou o analfabetismo entre colaboradores e, ao longo do tempo, ampliou o acesso ao ensino para familiares e jovens da comunidade, fortalecendo vínculos e criando oportunidades que permanecem para além de cada safra.

Nesse sentido, o café deixa de ser apenas um item presente na mesa do consumidor e passa a atuar como agente de transformação territorial. Ele gera renda, viabiliza qualificação, fixa pessoas no campo e sustenta projetos sociais que só são possíveis quando há previsibilidade, planejamento e relações construídas no tempo.

É nessa mesma lógica que o cooperativismo se alinha. Ao lado de produtores e empresários, a COCRED atua como parceira próxima, oferecendo crédito alinhado ao ciclo da cafeicultura, soluções financeiras adequadas à realidade do campo e uma relação baseada em confiança mútua. Um apoio que fortalece toda a cadeia do café, da produção à comercialização, e permite que impacto econômico e impacto social avancem juntos.

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