Bets ameaçam economia brasileira e já comprometem cerca de 22% do orçamento familiar

Bets ameaçam economia brasileira e já comprometem cerca de 22% do orçamento familiar

Cores vibrantes, interface chamativa, navegabilidade simples e didática. Só por essas características, esses aplicativos já saem na frente, se o objetivo é prender a atenção do usuário. Mas por trás desse negócio existe uma estratégia muito mais acertada: o uso de influenciadores digitais garantindo ganhos elevados. Você já sabe o que é.

Os jogos online de apostas se tornaram febre em todo o Brasil e, diferente do que se ouve em conversas de bares, têm levado muitas famílias à ruína financeira. O fenômeno ganhou destaque em 2023, após o Ministério da Fazenda criar a Secretaria de Prêmios e Apostas para regular o setor – a regulamentação entra em vigor, de fato, em janeiro de 2025.

Em 2024, foram publicadas mais de dez portarias com todas as regras relacionadas às apostas de quota fixa. Até outubro, 93 empresas estavam autorizadas a funcionar pelo Governo Federal. Os aplicativos e sites fora desse rol devem ser bloqueados. Mas não é isso que está acontecendo na prática.

Atraindo milhões de usuários diariamente, as bets, como são chamadas as casas de apostas esportivas, são apresentadas como meios de entretenimento associados ao ganho rápido de dinheiro em troca de baixos aportes, muitos deles a partir de R$ 5,00. Preocupadas com a saúde financeira dos brasileiros, entidades buscaram o Supremo Tribunal Federal (STF) contra a legislação.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), por exemplo, sugeriu ao governo que impeça o uso do PIX em sites de apostas. Mas voltando um pouco na história, é importante entender que as apostas de quota fixa de eventos esportivos foram legalizadas por meio da Lei 13.756/2018. Desde então, não havia um sistema claro de controle de entrada, fiscalização ou tributação.

Apenas com a Lei 14.790/2023, foram introduzidos requisitos e diretrizes gerais para a regulamentação do setor, incluindo jogos online de cassino entre as modalidades permitidas. Por lei, a utilização de plataformas de jogos de apostas por crianças e adolescentes é proibida. Isso já estava expresso no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e foi reforçado na nova legislação de 2023, bem como nas portarias de regulamentação.

As empresas também precisam garantir segurança da informação aos apostadores, que devem ser identificados por documentos e sistema de reconhecimento facial com prova de vida, além de manter no cadastro uma conta bancária ou de pagamento em seu nome, que será a origem e o destino dos recursos. Também é proibida a realização de depósitos ou pagamento de prêmios por meio de dinheiro em espécie ou boleto. Tudo isso para proteger o cidadão e evitar golpes financeiros.

Mas para o economista Diego Alberto Galli, coordenador do Centro de Pesquisas do Varejo (CPV), mantido pelo Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sicovarp) e Câmara de Dirigentes Lojistas de Ribeirão Preto (CDL RP), as ameaças das bets vão além e representam um risco à economia e ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Isso porque, estimulando a ideia de que é possível obter rendimentos elevados de forma instantânea, sem planejamento, investimento compatível ou mão-de-obra, as casas de apostas fomentam uma concepção que anula qualquer princípio de educação financeira.

“As crianças que estão fazendo uso desses jogos desenvolvem uma visão completamente errada sobre como lidar com o próprio dinheiro. Isso é extremamente problemático, uma vez que você cria, para o futuro, adultos poucos conscientes e pouco entendidos sobre o que é o real investimento e do que é gasto consciente. Cria-se adultos que terão dificuldades em gerenciar o próprio orçamento familiar”, alerta.

Galli destaca ainda que, acreditando que obter lucros elevados é algo fácil, a busca por emprego ou investimento em empreendedorismo fica em segundo plano, receita para o aumento do desemprego do país. Outra consequência direta é o crescimento do número de pessoas em subempregos, uma vez que os valores que poderiam ser utilizados em capacitação são desviados para as apostas.

Outro aspecto apontado pelo economista é o endividamento da população, com ênfase nas classes economicamente menos favorecidas. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 1,3 milhão de pessoas entrou em inadimplência no primeiro semestre de 2024 em decorrência dos jogos online.

Vislumbrados com promessas e acreditando que as plataformas serão capazes de mudar a condição financeira de forma rápida, muitos brasileiros acabam apostando mais do que podem, adquirindo dívidas exorbitantes.

“Já temos estudos que mostram que parte desses apostadores admitem que o dinheiro usado nas apostas seria utilizado para pagar contas ou para a compra de alimentos, ou seja, está havendo uma troca de necessidades básicas. Existem pessoas, inclusive, que fazem uso de bolsas assistenciais do governo para jogar. No momento que a pessoa faz essa troca, está comprometendo a própria qualidade de vida”, detalha.

Diego Alberto Galli, economista

Fuga do capital

Quando o vício se instaura, a tendência é que apostadores se tornem usuários. Isso significa que a capacidade de consumo deles diminui e o dinheiro deixa de circular no mercado, afetando negativamente o PIB, ainda de acordo com Galli. Uma pesquisa publicada recentemente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de São Paulo (FecomercioSP) expõe dados alarmantes sobre o perfil dos apostadores e o impacto das bets no varejo. Apenas na capital paulista, 17% da

população assume ter aderido às apostas, 20% utilizam o dinheiro que seria usado para saldar dívidas, 12% desviam o valor destinado à compra de alimentos e 9% priorizam jogos em detrimentos da compra de itens como roupas e calçados. “Está existindo uma troca de necessidades básicas por jogos. O varejo, de modo secundário, é extremamente afetado. Uma vez que a pessoa está trocando suas necessidades básicas por jogos, troca também as compras no varejo. Isso tem um impacto imediato”, afirma Galli.

Ainda de acordo com estudos da CNC, entre 2023 e 2024, os brasileiros gastaram R$ 68 bilhões em apostas, valor que representa 22% da renda disponível das famílias durante esse período. Em projeção, a Confederação estima que o comércio possa perder até R$ 117 bilhões por ano em faturamento em função do desvio do consumo. Além disso, a fuga do capital é outro agravante que afeta o crescimento do PIB.

Diferentemente do comércio e do setor de serviços, as casas de aposta redistribuem o dinheiro, mas não cria recursos. Essa movimentação faz com que não haja geração de riqueza para a economia local, já que muitas dessas empresas estão fora do Brasil.

“As apostas e esses jogos que são chamados de cassinos online têm mudado o hábito das pessoas e é preciso entender que os riscos não são apenas para o próprio bolso, mas para a economia como um todo. No começo, você ganha, mas isso não se mantém. Regulamentação, limitação, proteção e conscientização são fundamentais”, conclui o economista.

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