“O futebol mudou minha vida e a da minha família”. A frase poderia ter sido dita por milhares de brasileiros que tiveram a trajetória transformada por esse esporte centenário. No país do futebol, há quem veja a vida mudar pela paixão de torcedor, pela emoção de acompanhar o time do coração levantar um título. Há quem encontre no esporte um refúgio para a saúde mental, um espaço de pertencimento e alívio. E há, ainda, quem tenha a vida transformada ao se profissionalizar e, por meio do futebol, conquistar melhores condições para si e para a família. Este foi o caminho de Fábio Carille, responsável pela frase que abre este texto.
Aos 52 anos, o treinador, que também atuou como jogador profissional, revisita a própria história com a serenidade de quem aprendeu a encaixar cada etapa da vida em seu devido lugar. Quando menino, Carille já sonhava em ser jogador de futebol. Natural da cidade de São Paulo, mudou-se aos 12 anos para Sertãozinho (SP). Pouco tempo depois, precisou colocar o sonho em segundo plano ao compreender que era necessário ajudar em casa. Trabalhou como office boy e, posteriormente, no setor de inspeção de uma usina de cana-de-açúcar em Pradópolis (SP).
Apesar da rotina intensa e das responsabilidades precoces, a paixão pelo futebol permanecia ali, como uma esperança adormecida. Foi aos 20 anos que tudo mudou, após um teste que, por muito pouco, não ficou pelo caminho.
“Aconteceu um teste em Sertãozinho, que foi no sábado de manhã. Eu tinha trabalhado até sexta e não ia. De repente, acordei no sábado, peguei a chuteira, fui fazer o teste e passei. Acredito muito em destino. Acho que eu tinha que fazer o teste e as coisas tinham que acontecer desse jeito. Assim começou minha vida no futebol”, relembra.
Sem sequer ter passado pelas categorias de base, Carille foi aprovado nos juniores do Sertãozinho e se viu diante da primeira grande decisão da carreira. Para viver o sonho, precisaria abrir mão de um salário maior e da estabilidade que a usina proporcionava à família. O futuro era incerto, mas, com o apoio do pai, a escolha foi feita e o jovem passou a integrar o time do “Touro dos Canaviais”, atuando como lateral-esquerdo.
Naquele tempo, cada chute dado representava um passo em direção a um futuro melhor, um grito silencioso de quem acreditava que o esporte poderia ser a ponte entre o menino que ele foi e o homem que desejava se tornar. Como milhões de jovens brasileiros, Carille depositava no futebol a esperança de mudar de vida e aos poucos viu seus sonhos se tornarem realidade.
O tempo passou e aquele garoto sonhador cresceu. Vestiu camisas de peso, sentiu o coração pulsar em estádios lotados e carregou no peito escudos que representam paixões de um país inteiro. Entre eles, o do Corinthians, onde viveu alguns dos capítulos mais marcantes da própria trajetória e da história do clube paulista. No time, Carille foi jogador, integrou a comissão técnica e, mais tarde, assumiu o comando como treinador.
Foi fora das quatro linhas, à beira do gramado, que o sonho de menino superou as expectativas. Tornou-se técnico, líder e referência. Em 2017, como treinador efetivo do Corinthians, conquistou o Campeonato Brasileiro e o bicampeonato paulista. Retornou ao clube em 2019, após uma passagem pelo Al-Wehda, da Arábia Saudita, e levantou mais um título, se tornando tricampeão da competição estadual.
Mas o futebol que transformou a vida de Fábio Carille não se resumiu às conquistas, aos títulos ou aos holofotes. Com o amadurecimento, a experiência acumulada ao longo de décadas passou a ganhar outro significado: o de devolver ao futebol e à comunidade parte de tudo o que ele próprio recebeu. Porque, se o esporte foi capaz de abrir caminhos quando tudo parecia improvável, ele também poderia ser instrumento de transformação para outras histórias ainda em construção.
Em Sertãozinho, a cidade onde tudo começou, essa devolutiva ganhou forma em 2015, com a criação da Escola de Futebol Fábio Carille. Voltada a crianças e adolescentes de 4 a 16 anos, a iniciativa nasceu com uma proposta que vai além da formação esportiva. Ali, o futebol é ferramenta, não fim. Serve para ensinar fundamentos técnicos, mas também valores como respeito, disciplina, dedicação e, claro, cooperação.
Com o tempo, o projeto se expandiu e deu origem ao Instituto Carille, ampliando o alcance social da iniciativa. Desde 2023, o instituto atende cerca de 150 crianças e adolescentes no contraturno escolar, oferecendo atividades esportivas, acompanhamento psicológico e assistência social às famílias cadastradas. Mesmo não estando à frente da operação cotidiana, Carille acompanha o projeto de perto. “É preciso persistir, insistir e acreditar. Cada menino ali precisa acreditar em si mesmo para alcançar. É uma vida de sacrifício, com concorrência muito grande, mas quem chega lá alcança muita alegria e satisfação”, afirma.

Para o treinador, tanto a escola quanto o instituto cumprem um papel que ultrapassa a formação de futuros atletas. “O instituto é para formar melhores cidadãos, em todos os sentidos. Nem todos vão chegar ao profissional, é um caminho muito difícil, mas, de alguma forma, a gente ajuda esses meninos a serem indivíduos melhores, homens com caráter, respeito e personalidade”, completa.
A lógica que sustenta o projeto é a mesma do futebol dentro de campo. Ninguém vence sozinho. Cada passe, cada jogada e cada resultado depende do coletivo. Essa compreensão é construída diariamente com as crianças e adolescentes atendidos e se conecta aos princípios da COCRED, cooperativa da qual tanto o treinador quanto a escola e o instituto são cooperados.
Ao oferecer soluções financeiras de qualidade para iniciativas como essas, a COCRED fortalece o ciclo virtuoso do cooperativismo, em que os recursos retornam para a comunidade em forma de desenvolvimento social, formação de cidadãos e novas oportunidades. Assim, o cooperativismo cumpre seu papel de gerar impacto além do financeiro, promovendo transformação real na sociedade.
Futebol que forma e transforma
Não muito longe de Sertãozinho, em Barrinha (SP), o futebol também tem cumprido um papel essencial. Em um município com pouco mais de 32 mil habitantes, escolinhas e projetos esportivos se tornam espaços fundamentais de formação, transformação, acolhimento e construção coletiva. É o caso do Espasso Futebol, cooperado da COCRED desde 2018, onde funciona a Escola Camisa 10, iniciativa que atende atualmente cerca de 110 crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos.
À frente do trabalho está Fábio Alves, diretor da escolinha e quem acompanha de perto o desempenho esportivo, a rotina, o comportamento e a evolução pessoal de cada aluno. Os treinos acontecem ao longo da semana, com foco técnico, físico e tático, organizados por categorias de idade. Os alunos participam de atividades coletivas e amistosos, colocando em prática tudo o que foi trabalhado nos treinamentos.
Além da preparação esportiva, o futebol ali funciona como disciplina diária, estímulo à convivência e incentivo à permanência na escola. “Desde o começo, a gente deixa muito claro que virar jogador profissional é muito difícil. É um em um milhão. Por isso, o nosso principal objetivo é preparar esses meninos para a vida”, explica Alves. A exigência de frequência escolar, o diálogo constante com as famílias e o acompanhamento individual fazem parte da metodologia adotada. “Aqui, para treinar, tem que estudar”, complementa.
Embora muitos alunos sonhem em seguir carreira profissional, o projeto também acolhe crianças que buscam no esporte outros benefícios: socialização, inclusão, saúde e até apoio emocional. Entre os alunos, há jovens com deficiência, crianças em processo de emagrecimento e aquelas que encontram no futebol uma alternativa ao excesso de tempo em frente às telas.
A lógica do coletivo é trabalhada desde cedo. Nos treinos e campeonatos, as crianças aprendem que o resultado não depende apenas do talento individual, mas da capacidade de atuar em grupo. “Quando eles jogam entre si, às vezes não percebem tanto, mas quando enfrentam outra escolinha, entendem rápido que ou jogam juntos ou perdem juntos. A cooperação fica muito clara ali”, conta.

Em Santa Rosa de Viterbo (SP), a lógica é semelhante. A escolinha vinculada ao Primavera Country Club, também cooperado da COCRED, atende crianças de 4 a 12 anos, com treinos regulares, participação em campeonatos regionais e um trabalho estruturado que combina formação esportiva e desenvolvimento humano. Após a pandemia, o projeto passou por um período de readaptação, mas logo retomou o crescimento. Em dois anos, saltou de cerca de 40 para quase 150 alunos.
“O nosso objetivo é formar caráter. Se lá na frente alguém virar jogador, ótimo. Mas, acima de tudo, queremos formar bons cidadãos”, explica Vinícius Costa, treinador e coordenador da escolinha. “O esporte é vida. O que eles aprendem aqui serve para casa, para a escola e para o trabalho”, complementa.
O projeto também se destaca pela diversidade. Meninas participam ativamente dos treinos e competições, dividindo o campo com os meninos em diferentes categorias. Para Costa, essa convivência é natural e educativa. “Elas treinam normalmente com todos. O futebol é para todos”, afirma.
Além dos alunos associados ao clube, a escolinha mantém uma importante frente social. Crianças e adolescentes da cidade que não são sócios também podem ser acolhidos, especialmente quando demonstram interesse, dedicação e potencial técnico para contribuir com o grupo. A proposta é ampliar o acesso ao esporte e revelar novos talentos.
Por lá, cada aluno é acompanhado de forma individual, mas sempre com o olhar voltado ao coletivo. Jogos associativos, atividades colaborativas e dinâmicas de cooperação fazem parte da metodologia aplicada desde as primeiras idades. “Desde os 4 anos, a gente ensina que o coletivo é maior do que o individual. O talento pessoal só faz sentido quando potencializa o grupo”, resume o treinador.
Essa visão tem raízes na própria trajetória do profissional. Antes de ocupar a função à beira do campo, ele esteve exatamente no lugar das crianças que agora orienta. Desde pequeno, teve o futebol como sonho, passou por categorias de base e chegou a atuar em Anápolis (GO). Após encerrar a carreira como jogador profissional, decidiu ressignificar a relação com o futebol.
Em 2015, ele ingressou no Primavera Country Club como auxiliar e, aos poucos, construiu sua trajetória como educador e treinador. Hoje, transforma a própria experiência em ferramenta pedagógica, usando o futebol como meio para orientar, motivar e formar. Para ele, trabalhar com futebol é cuidar de futuros, ajudando cada criança e adolescente a encontrar seu lugar dentro e fora de campo.
Paixão nacional e mundial
Neste ano, a Copa do Mundo faz com que os olhos do mundo inteiro se voltem, ao mesmo tempo, para o futebol. De 11 de junho a 19 de julho, o esporte volta a ocupar o centro das conversas, das emoções e das atenções globais. É um show de pluralidade e cooperação, afinal, se existe um esporte em que a cooperação é determinante para o sucesso, esse esporte é o futebol. Durante 90 minutos ou mais, atletas colocam esforço individual a serviço do coletivo para transformar dedicação em resultado no placar. Toda vitória se torna coletiva.
Essa lógica não se restringe aos grandes estádios. Ela se repete, diariamente, em campos menores, em escolinhas, projetos sociais e iniciativas comunitárias espalhadas pelo país. E é nesse ponto que o cooperativismo encontra o futebol. Assim como no jogo, quando um serviço financeiro é bem oferecido, quando há apoio estruturado e compromisso de longo prazo, o resultado também é coletivo.
Ao apoiar projetos esportivos e iniciativas sociais, as cooperativas fortalecem um ecossistema em que o desenvolvimento retorna para a comunidade em forma de oportunidades, inclusão e formação humana. O impacto é percebido em negócios mais sustentáveis, projetos mais sólidos e pessoas mais preparadas para agir com cooperação.
É por isso que a COCRED atua, há mais de 56 anos, oferecendo apoio financeiro, estrutura e orientação para que iniciativas saiam do papel, se fortaleçam e ganhem continuidade. Ao impulsionar projetos esportivos e sociais, a cooperativa contribui para a gestão, a organização e o crescimento de ações que transformam realidades e impactam positivamente a vida de incontáveis pessoas. Assim, a COCRED ajuda a transformar campos em campos de oportunidades.
🔗Clique aqui e leia mais na 47ª edição da Revista COCRED MAIS.
E para ficar sempre atualizado sobre as novidades, siga a COCRED no Facebook, Instagram e LinkedIn.