Pingado ou média, o nome varia conforme a região do Brasil, mas a bebida que caiu no gosto popular é quase uma unanimidade no país. A receita é adaptável, muda de acordo com o estabelecimento e com o gosto do cliente. Independentemente do nome ou das proporções dos ingredientes escolhidos na hora de servir, um bom café com leite é aquele que gera empregos, promove o desenvolvimento econômico e coloca comida na mesa de milhares de produtores rurais.
Pelo menos esses são alguns dos critérios usados para se qualificar a bebida no interior de Minas Gerais, mais precisamente no município de Boa Esperança. Por lá, cada xícara consumida representa a força de pequenos e médios produtores que, por meio da cooperação, se tornam grandes.
Boa Esperança abriga a Capebe, a terceira maior cooperativa agropecuária de Minas Gerais e uma das maiores expressões da força transformadora do cooperativismo no município. Fundada em 1963 pela união de 63 produtores de leite e café, a cooperativa nasceu com o objetivo de oferecer apoio técnico, acesso a insumos, estrutura de comercialização e investimentos contínuos. A proposta era permitir que pequenos produtores superassem barreiras antes intransponíveis, como, por exemplo, a entrada no mercado internacional.
De acordo com o diretor-presidente da cooperativa, André Luiz Reis, o modelo de negócios da Capebe funciona como uma “roda da cooperação infinita”. “O cooperado confia seu capital, a Capebe oferece soluções, o cooperado lucra e a roda gira. Essa roda só chega ao fim se pararmos a cooperação e, graças a um trabalho sério e sólido, o que vemos são mais produtores rurais se associarem à Capebe ano após ano”, explica.

Como resultado, entre 2023 e maio de 2025, a cooperativa viu sua taxa de exportação de café crescer 14.000%. Mas como isso é possível com 95% do quadro de cooperados formado por pequenos produtores? A resposta está na força coletiva que o cooperativismo proporciona. Individualmente, pequenos produtores muitas vezes não têm escala, estrutura ou capacidade logística para atender às exigências do mercado externo.
Mas, dentro de uma cooperativa, eles somam suas produções, compartilham custos e se beneficiam de infraestrutura coletiva, como armazéns, laboratórios de qualidade, centros de distribuição e equipes técnicas especializadas. A cooperativa atua como ponte entre o campo e o mercado, organizando a produção, garantindo padrões de qualidade, negociando em grande escala e abrindo portas que estariam fechadas para quem está sozinho.
É esse modelo cooperativo que transforma o esforço individual em potência coletiva, permitindo que o pequeno produtor alcance mercados antes inacessíveis, inclusive o internacional. “Uma cooperativa surge exatamente da necessidade de pessoas serem melhor representadas no mercado. Se um fazendeiro já tem tudo o que precisa, talvez ele não seja o primeiro interessado a fundar uma cooperativa, mas sim pequenos produtores que querem uma vida melhor para suas famílias”, destaca Reis. Essa dificuldade estrutural é confirmada por José Carlos Lima Júnior, economista, professor de pós-graduação e especialista no setor de agronegócio.
Para ele, os principais gargalos enfrentados pelos pequenos produtores têm origem na ausência de investimentos corretos, muitas vezes decorrentes da falta de orientação técnica adequada. “Destaco quatro pontos chave: pós-colheita e beneficiamento, comercialização, infraestrutura de transporte e energia, e acesso à tecnologia”, afirma.
Segundo Lima Júnior, muitos pequenos produtores perdem valor porque não conseguem processar, armazenar ou embalar adequadamente seus produtos. Além disso, sem estrutura para acessar mercados diferenciados, como exportações ou certificações de orgânicos, acabam dependentes de intermediários, que pagam menos.
A precariedade da infraestrutura também pesa. “Sem estradas de qualidade e fornecimento elétrico confiável, a logística encarece e desestimula investimentos em mecanização ou irrigação”, destaca. E, por fim, ele chama atenção para os impactos da exclusão digital: “A falta de conectividade faz com que maquinários de tecnologia superior sejam subutilizados. O resultado é a perda da competitividade mesmo em cadeias produtivas mais simples, como hortifruti.”

Impactando o mercado positivamente, o cooperativismo agropecuário brasileiro movimenta mais de R$ 274 bilhões em ativos, de acordo com o Anuário do Cooperativismo 2024. O setor conta com 1.179 cooperativas agropecuárias e mais de 1 milhão de cooperados, gerando 257 mil empregos diretos. Essas estruturas atuam em todos os elos da cadeia produtiva, do campo à mesa do consumidor. Os números positivos não param por aí. Em 2023, as cooperativas agropecuárias brasileiras investiram mais de R$ 11,6 bilhões em salários e benefícios, movimentaram mais de R$ 423 bilhões em receitas e distribuíram R$ 20,4 bilhões em sobras.
Mas o verdadeiro valor do cooperativismo vai além e está no que ele transforma: famílias que permanecem no campo, jovens que decidem continuar a tradição rural com inovação e comunidades que se desenvolvem graças ao trabalho coletivo. O cooperativismo agropecuário é uma ferramenta de justiça e inclusão produtiva.
Intercooperação
A mais de 600 quilômetros de Boa Esperança, no interior de São Paulo, o município de Bastos mostra que o cooperativismo também é capaz de impulsionar cadeias produtivas distintas, como a avicultura. Conhecida como a “Capital do Ovo”, Bastos responde por cerca de 11,5% da produção total de ovos do estado de São Paulo, movimentando cerca de 6,6 bilhões de unidades por ano, segundo dados da Associação Brasileira da Proteína Animal (ABPA). A produção traduz a força de um modelo que apoia, financia e estrutura pequenos e médios avicultores da região. Com pouco mais de 21 mil habitantes, a cidade encontrou no cooperativismo agropecuário uma solução concreta para promover o desenvolvimento.
A Cooperativa Avícola de Bastos nasceu da necessidade de garantir competitividade, acesso a insumos e poder de negociação a pequenos produtores. “Nossa cooperativa começou como a maioria das cooperativas começa: com pequenos produtores que precisavam ter mais facilidade de acesso a produtos e insumos. A cooperativa ajuda bastante o pessoal a ter sua renda, empregar funcionários, trazer esse desenvolvimento para o município”, destaca Castro Joji Yoshida, presidente da cooperativa desde 2012.
Um dos cooperados da instituição é Sérgio Shinichi Arida, que seguiu os passos do pai no comando da granja da família e encontrou no cooperativismo o apoio que buscava. “A gente fornece os ovos que produzimos e eles, a ração. No final do ano fazemos o levantamento dessa diferença”, explica Arida, detalhando como o sistema cooperativista proporciona equilíbrio financeiro ao longo do ano. “Meu pai veio do Paraná e começou aqui junto com meu tio na granja. Ele também era cooperado da cooperativa Avícola.”

Na análise do economista Lima Júnior, a avicultura é um bom exemplo de setor onde eficiência e padronização proporcionadas pelo apoio de cooperativas fazem toda a diferença. O especialista ainda reforça que, onde as cooperativas são bem geridas e profissionalizadas, o impacto sobre a renda e a permanência do pequeno produtor no campo é visível.
“A eficiência e a padronização são determinantes para a competitividade de todo negócio agro, sobretudo naqueles expostos às exigências internacionais e concentração de mercado.” Assim como o café e o leite de Boa Esperança, o ovo de Bastos é símbolo de continuidade, desenvolvimento e autonomia produtiva.
Cada unidade carrega não apenas a história de quem produz, mas a força de uma estrutura coletiva que sustenta e viabiliza essa produção. E, para que tudo isso aconteça de forma sustentável, é fundamental que o apoio à produção venha acompanhado de suporte financeiro acessível, inteligente e cooperativo. Tanto a Capebe quanto a Cooperativa Avícola de Bastos, embora atuem em cadeias produtivas diferentes, compartilham um ponto em comum: são cooperadas da Sicoob COCRED. Por meio da intercooperação entre os ramos agropecuário e de crédito, essas cooperativas encontram o fôlego necessário para crescer com segurança e visão de futuro.
Essa parceria vai muito além do crédito rural tradicional, envolvendo soluções personalizadas de capital de giro, financiamento para insumos, investimentos estruturais e modernização das propriedades. Hoje, mais da metade das cooperativas agropecuárias brasileiras já atuam em parceria com cooperativas de crédito, consolidando a intercooperação como uma estratégia poderosa para o desenvolvimento regional. “Tanto nós quanto a COCRED somos guiados pelos princípios do cooperativismo e formamos uma parceria dedicada aos cooperados ao longo de nossas histórias.
Por meio da Capebe, o produtor conta com suporte técnico e especializado para produzir no campo e obter rentabilidade. Do outro lado, se precisa de capital financeiro para comprar, por exemplo, um implemento na Capebe ou plantar uma nova lavoura, a cooperativa de crédito oferece os recursos para financiar seu negócio em condições mais vantajosas. Em ambas as instituições, o foco é a sustentabilidade da atividade do cooperado. Assim, nossa relação colabora com ele em todas as etapas e necessidades”, aponta o diretor-presidente da cooperativa.
Quando diferentes ramos do cooperativismo trabalham juntos, o impacto é transformador. A intercooperação fortalece as comunidades e assegura que, no agro brasileiro, os pequenos produtores se tornem grandes.
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