De grão em grão: amendoim reconquista espaço no mercado

De grão em grão: amendoim reconquista espaço no mercado

Quem viaja no caminho de Tupã para Herculândia, no oeste paulista, pode observar, às margens da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a cerealista Amendofante. Fundada há uma década, a empresa é uma representante da evolução do mercado do amendoim nesse período. O investimento em qualidade genética e tecnologia na lavoura, bem como no processamento dos grãos, fez crescer a demanda nacional e, com isso, a produção brasileira mais que dobrou.

Na safra 2014/15, por exemplo, o Brasil colheu, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 346,8 mil toneladas do grão. Já na temporada 2022/23, o volume colhido, de acordo com estimativa da companhia em maio, o último antes do fechamento desta edição, era de 893 mil toneladas. São Paulo responde por quase 90% da produção, com a região de Tupã liderando a oferta do estado – cerca de 60%.

A trajetória da família de Eder Bonfante Tenório, proprietária da Amendofante, ilustra esse cenário de expansão. O pai dele começou a plantar amendoim em 1985, quando decidiu trocar o asfalto pela terra: abandonou a antiga profissão, de caminhoneiro, e comprou um trator.

Eder conta que, aos finais de semana, acompanhava o desenvolvimento da plantação. O interesse foi um impulso para que entrasse na faculdade de Agronomia, cursada até 2007 na Universidade Federal de Viçosa (UFV). “Quando me formei, vim trabalhar com meu pai, pensando que, se não desse certo, arrumaria outro emprego. Estamos juntos até hoje. Eu, meu pai e minha irmã”.

Havia um motivo para o receio inicial de Eder: o pai tinha um maquinário “sofrido” e cuidava, praticamente sozinho, de 100 alqueires. “Era uma época meio difícil”. Aos poucos, as condições foram mudando, o que permitiu a inauguração da cerealista em 2013, com estrutura para secagem, armazenamento, beneficiamento e blancheamento – processo para retirada da película que envolve o grão.

Atualmente, a Amendofante processa, por safra, de 600 a 800 mil sacas de 25 quilos de amendoim em casca. Metade fica no mercado interno, 30% são exportados e outros 20% destinados a sementes. Para isso, Eder conta com os produtos e serviços da Cocred, da qual é cooperado há seis anos. “Cada vez mais, a gente aprimora esta parceria. A cooperativa nos atende muito bem e contribui para que as operações estejam indo bem”.

Evolução

O tempo difícil a que Eder se referiu era ainda herança de uma época em que o amendoim passou a ser preterido. Cultivado comercialmente no Brasil desde a década de 1950, o grão chegou a disputar espaço com cana, café, milho, soja, algodão, arroz, entre outros. Mas, com o avanço da soja e dos canaviais, muito em função do Proálcool, programa do Governo Federal que começou nos anos 1970 para incentivar a fabricação e o consumo de etanol, acabou perdendo força.

A retomada, anos mais tarde, veio consorciada justamente com os canaviais. Graças a um trabalho de associações de agricultores, o amendoim passou a ser usado em rotação de cultura, por causa da capacidade de enriquecer o solo com nitrogênio. Era uma alternativa, inclusive, para renovar as áreas após a colheita da cana e entregá-las preparadas para as próximas safras das usinas. “Nós, por exemplo, não produzimos o amendoim em terras próprias. Arrendamos das usinas, plantamos e depois devolvemos”, explica Eder.

Eder Bonfante Tenório

Rigor

Esse sistema de cultivo, aliado ao aumento da preocupação com a qualidade e aos investimentos em novos maquinários para colheita, secagem e beneficiamento, ajuda a explicar o novo momento, de aperfeiçoamento da cadeia produtiva. Um dos resultados foi, justamente, a construção de modernas cerealistas, que, além de abastecerem o mercado interno, abriram canais para escoamento no exterior.

No caso da Amendofante, os maiores compradores são Rússia e Argélia. Para atender às exigências internacionais, o blancheamento é fundamental, já que facilita o controle da aflatoxina, fungo que pode aparecer em qualquer fase da produção, inclusive na industrialização, e trazer sérios prejuízos à qualidade do amendoim.

Hugo Balsamo, sócio de outra empresa, que leva o sobrenome da família, em Dumont, explica que o blancheamento é a principal condição para que o produto brasileiro entre na Europa. Além do combate à aflatoxina, favorece a fiscalização pelos importadores.

O Grupo Balsamo vende 30% das 1,5 milhão de sacas de 25 quilos que processa por safra a países como Holanda, Inglaterra, Portugal, Grécia, Polônia, Rússia e Ucrânia – com limitações para esses dois últimos, por causa do conflito armado entre eles.

As regras rígidas da União Europeia impõem que 99% de todo o amendoim que a Balsamo manda para os países do bloco seja blancheado. O grupo mantém, ainda, um laboratório em suas dependências, para análise minuciosa das amostras. De todo o volume de amendoim recebido por safra, a Balsamo processa e comercializa cerca de 80%. Os outros 20% vão para a fábrica própria de doces e confeitos, como paçoquinhas, amendoim japonês, entre outros. Isso sem contar os grãos pequenos e quebrados, que não são descartados, mas destinados à indústria de óleo.

A história do Grupo Balsamo começou em 1995, quando os irmãos José Ronaldo, Luiz Fernando e Jacinto – pai de Hugo e já falecido – montaram uma cerealista, cujo objetivo era comprar amendoim, debulhar e revender. Cinco anos mais tarde, surgiria a fábrica de doces. A partir daí, passou a contar com o apoio da Cocred.

“Prezamos muito pelo relacionamento com a cooperativa, que sempre acreditou na nossa evolução em todos os momentos, auxiliando e amparando sempre com excelentes linhas de crédito para conduzirmos as operações. Grande parcela do sucesso e do crescimento da Balsamo se deve à parceria com a Cocred, que segue firme até hoje”, diz Hugo. AGRONEGÓCIO

Em 2007, um novo passo. Os irmãos compraram uma área, construíram alguns galpões, investiram em maquinários para limpeza e secagem de grãos, e passaram a trabalhar com volumes maiores em relação à cerealista. E, no ano seguinte, foi inaugurada a unidade de blancheamento.

Paralelamente ao trabalho voltado à exportação, Hugo acredita que o mercado interno deve ter novos incrementos. “O amendoim sempre tem espaço para inovação. Um nicho que, por exemplo, começa a ser mais explorado, em função da onda fitness e da busca por alimentos saudáveis, é o de pasta de amendoim”.

Crédito

A evolução do mercado do grão significa maior direcionamento de crédito rural à cultura. Estudo divulgado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), com apoio da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (ABICAB), demonstrou que, de 2013 a 2020, houve um aumento de 144% nesse tipo de crédito para o segmento, saindo de R$ 215,9 milhões para R$ 527,4 milhões. Na Cocred, o crédito para a cadeia do amendoim está incluso nas liberações ao agronegócio – que, durante a safra 2022/23, atingiram R$ 3,087 bilhões.

Hugo Balsamo

Incentivo ao consumo

Apesar da expertise nacional do setor, que permitiu ao Estado de São Paulo modernizar a cadeia e atingir mais de 90% da produção nacional, a participação do Brasil no mercado internacional de amendoim ainda é pequena e corresponde a 1,5% da produção mundial, que é de aproximadamente 50 milhões de toneladas por safra.

O presidente executivo da ABICAB, Jaime Recena, afirma que vários trabalhos têm sido feitos para incentivar o consumo e garantir segurança nas prateleiras dos supermercados. Um deles é o selo Pró-Amendoim, que certifica as empresas que atendem aos requisitos da legislação nacional.

O programa, segundo Jaime, colabora para denúncias de produtos irregulares, por meio de monitoramento e análise realizada por laboratório credenciado, além de favorecer a exportação do produto. São medidas que podem aproximar o nosso patamar de consumo ao que é observado em outros países. Enquanto a média mundial é de 6,3 quilos por habitante ao ano, no Brasil está em 1,6 quilo por habitante ao ano.

Apesar de o Estado de São Paulo responder pela maior fatia do consumo interno, em torno de 42% do total, as indústrias começam a se concentrar, também, em estados como Paraná e Rio Grande do Sul. Além disso, há maior penetração de preparados, como os doces, nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza e Salvador.

“O amendoim sempre esteve inserido na dieta e na cultura de diversas regiões do Brasil e é de extrema importância para a economia. Presente em receitas típicas de cada região, por ser um grão versátil, pode ser utilizado em preparações doces e salgadas. Além de apresentar boa relação custo-benefício, é rico em nutrientes e acessível”, afirma Jaime.

De julho de 2020 a junho de 2021, período agudo da pandemia de Covid-19, o consumo de amendoim industrializado no país cresceu 8,6% na comparação com o mesmo período anual anterior, resultado da maior presença das pessoas em casa e, consequentemente, da oferta de produtos prontos à base de amendoim, diversificados e fáceis de consumir. Além de paçoquinha e pé-de- -moleque, alguns dos mais tradicionais, o grão tem sido destinado a outros preparos, como biscoitos finos.

A partir de 2022, a flexibilização das medidas sanitárias e a retomada das viagens também contribuíram para aumentar o consumo, principalmente em localidades onde as festas juninas se estendem pelo ano todo. Oportunidade para que se possa contemplar o progresso da cadeia produtiva, mesmo se o trajeto não incluir o trecho Tupã-Herculândia.

Sem corantes e conservantes

Com apoio da ABICAB, o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), vinculado à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, divulgou, em julho deste ano, um levantamento feito com 61 empresas processadoras de amendoim.

A pesquisa, intitulada “Amendoim Industrializado: nutritivo, seguro e presente na cultura brasileira”, apontou que 93,3% das análises não continham corantes e 87,1% estavam livres de conservantes. A maior parte das amostras demonstrou, também, relevante presença de proteínas e fibras – aliadas da saúde.

Segundo Jaime Recena, o estudo, que está disponível gratuitamente na internet, ajuda o consumidor a conhecer os benefícios oferecidos pela indústria do amendoim e reforça a percepção de que o grão, em suas diversas formas de processamento, pode compor uma dieta nutritiva e equilibrada.

Revista Cocred Mais

Esta é a reportagem de capa da edição 43 da Revista Cocred Mais. Para ler esta e outras na versão digital, clique aqui.

Jaime Recena

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