Desde fevereiro de 2019, Evandro Gussi é presidente da União da Indústria Canavieira (Unica), entidade representativa de um setor formado por 345 usinas e destilarias, que fazem do Brasil o maior produtor e exportador mundial de açúcar, e o segundo maior produtor de etanol. Atento aos principais movimentos do comércio global, ele atua para promover o país na América Latina, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia.
Gussi também preside o conselho consultivo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que presta serviços ao Ministério de Minas e Energia para subsidiar o planejamento do setor energético – contemplando energia elétrica, petróleo, gás natural e derivados.
Quando foi deputado federal, de 2015 a 2019, presidiu a Frente Parlamentar do Biodiesel, foi vice-presidente e diretor jurídico da Frente Parlamentar da Agropecuária, e compôs a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, com atuação focada em sustentabilidade, transição energética e bioenergia.
Em novembro de 2017, apresentou o projeto da Política Nacional de Biocombustíveis (Renovabio), que visa reduzir a emissão de gases do efeito estufa (GEE) por meio do incentivo a energias limpas e renováveis. Antes, em 2016, havia argumentado em prol da importância de o Brasil ratificar o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, ficando responsável pela redação final do projeto.
Nessa entrevista exclusiva à Revista Cocred Mais – Edição 44 (clique aqui), o executivo traça perspectivas otimistas para o mercado canavieiro, aborda a importância do etanol de milho para complementar a nossa pujança nos biocombustíveis, avalia a entrada de automóveis elétricos e híbridos na frota nacional, e a criação de um programa para produção do SAF, combustível sustentável para aviação, além de destacar os impactos positivos do próprio Renovabio e o papel das cooperativas, como a Cocred, no impulso à cadeia sucroenergética.
Tivemos um recorde de moagem de cana na safra 2023/24 e, na atual, as estimativas apontam para um resultado próximo disso, apesar da previsão de uma leve queda. Como esse panorama influencia as expectativas que a Unica tem para o setor?
Evandro Gussi – O setor sucroenergético está em crescimento e a tendência é de novos saltos. Chegamos facilmente a essa conclusão ao avaliarmos o passado e observar o que nos aguarda para o futuro. Até 2003, o Brasil produzia 300 milhões de toneladas de cana por ano e, em menos de dez anos, esse número foi duplicado, como reflexo da chegada dos carros flex no Brasil. Veja ainda o caso da produção de etanol de milho, que recebeu investimentos expressivos, saltou de 520 milhões de litros na safra 2017/18 para 4,5 bilhões de litros na safra 2022/23 e, agora, representa cerca de 20% de todo o etanol consumido no Brasil. Estamos otimistas com o que vem pela frente. O projeto de lei do Combustível do Futuro prevê importantes medidas de descarbonização da economia, com aumento da mistura do etanol na gasolina, incentivo à produção do biometano e criação de um programa de produção de SAF, que é o combustível sustentável da aviação. Paralelamente, o programa Mover prevê incentivos para a mobilidade de baixo carbono no Brasil. Todo esse cenário é de oportunidades. O setor sucroenergético tem mostrado, ao longo do tempo, que tem capacidade para esses grandes saltos. Novamente, estamos prontos para investir, crescer e atender às demandas que se apresentam.
Para atender aos protocolos ambientais, o mundo vai precisar aumentar a oferta de biocombustíveis. Temos notado cada vez mais interesse, de vários países, pelo nosso etanol. Quais os principais horizontes que esse cenário aponta?
Evandro Gussi – A estimativa da Agência Internacional de Energia é de que o mundo precisará triplicar a oferta de biocombustíveis até 2030. Isso quer dizer que a produção global teria que crescer 17% ao ano até o fim desta década. Nesse sentido, as oportunidades de crescimento são enormes, não apenas no que diz respeito à mobilidade terrestre, mas também em áreas como a aviação e a marítima. No ano passado, promovemos um seminário no Japão justamente para discutir oportunidades para o Brasil na produção de SAF, seja fornecendo matéria-prima, como o etanol, ou o próprio SAF. O Brasil é um case único, em todo o mundo, de sustentabilidade com viabilidade econômica. Queremos levar nossa experiência a outros países, especialmente do Sul Global, na África, Ásia e América Latina, para que o biocombustível da cana-de-açúcar e do milho possa contribuir com a descarbonização e o enfrentamento aos desafios climáticos em lugares com vocação para a agroindústria.

Nesse contexto, qual é o papel do milho como matéria-prima em relação à cana?
Evandro Gussi – A produção de etanol a partir do milho veio para somar e contribuir com a vocação do Brasil para a agroindústria de biocombustíveis, propiciando maior segurança alimentar e energética. No último ciclo, novamente observamos uma notável expansão da produção de etanol de milho, que, hoje, já representa cerca de 20% do etanol produzido no Brasil, e com apenas cerca de 10% a 15% do milho cultivado no Brasil destinado para a fabricação de etanol. Do ponto de vista energético, o etanol de milho, por ser produzido a partir de uma planta com características de cultivo e de armazenamento diferentes da cana-de-açúcar, permite que a sua produção possa ser homogênea durante todo o ano e realizada em regiões em que o cultivo de cana não é viável, possibilitando maior interiorização da oferta de biocombustível no Brasil, levando o etanol a preço competitivo a novas regiões. Do ponto de vista alimentar, a indústria de etanol de milho também possui uma ação complementar muito importante, pois destina apenas o amido do milho para produção do etanol, enquanto a proteína do milho é destinada para nutrição animal, e o óleo de milho fabricado pode ser comercializado para empresas alimentícias. E, assim como no cultivo da cana, temos uma indústria altamente sustentável, em linha com o que a FAO, o braço da ONU para Alimentação e Agricultura, chama de Sistemas Integrados de Produção de Energia e Alimento, em que um não compete com o outro. Importante destacar que 80% do milho cultivado no Brasil é de segunda safra, em um ciclo de rotação de cultura com a soja e, consequentemente, não exigindo a abertura de novas áreas para plantio. Importante ressaltar que não existe diferença do etanol de milho para o de cana-de-açúcar, nem mesmo em pegada de carbono. Diferente da indústria norte-americana, em que usam combustível fóssil para gerar energia elétrica, a indústria de etanol de milho brasileira possui um extenso planejamento de reflorestamento de eucalipto para posterior corte e utilização como biomassa renovável para gerar energia. Devido a essas medidas, as pegadas de carbono do etanol de milho e de cana-de-açúcar são muito próximas e com percentual elevado de descarbonização frente ao concorrente fóssil.
Temos presenciado a entrada no Brasil dos automóveis elétricos e híbridos. Que efeitos isso pode ter no mercado de biocombustíveis de maneira geral e, mais especificamente, no de etanol?
Evandro Gussi – Um estudo recente feito pela Stellantis – uma empresa global europeia que tem marcas como Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën – mostrou que o veículo movido pelo etanol brasileiro possui nível de emissões menor do que o veículo elétrico da média europeia. Dependendo das fontes de energia utilizadas, os carros elétricos podem deixar maior pegada de carbono em seu ciclo de vida. O Acordo de Cooperação Mobilidade de Baixo Carbono para o Brasil (MBCB) também apresentou, em abril deste ano, o estudo inédito “Trajetórias Tecnológicas mais Eficientes para a Descarbonização da Mobilidade”, elaborado pela LCA Consultoria e MTempo Capital. O levantamento indica que o investimento em veículos híbridos, que combinam biocombustíveis com elétricos, tende a apresentar os efeitos mais positivos para a economia brasileira, com melhores desempenho de PIB e de geração de empregos, em relação ao cenário que privilegia os veículos 100% elétricos. Além disso, a Empresa de Pesquisa Energética estimou que, para instalação de uma infraestrutura semelhante à dos postos de combustível, seria necessário um investimento de US$ 220 bilhões a US$ 300 bilhões. Por outro lado, o etanol tem ganhado cada vez mais eficiência energético-ambiental e há muita tecnologia sendo investida para que os índices de emissão sejam cada vez menores. Ou seja, investir 100% na eletrificação não faz sentido para um país com as características do Brasil. O etanol é sustentável, eficaz, barato e, principalmente, já é uma realidade há mais de 40 anos. Tecnologias como o híbridos-flex, por exemplo, encaixam-se perfeitamente em nossa realidade, e é a aposta de montadoras. Já podemos observar enormes investimentos nesse sentido.
Você foi o autor da lei do Renovabio. Que análise é possível fazer da implementação do programa até o momento, mencionado suas principais perspectivas e entraves para que o setor aproveite, ao máximo, suas principais potencialidades?
Evandro Gussi – O RenovaBio é o maior programa de descarbonização da matriz de transporte do mundo. A eficácia do programa pode ser confirmada numericamente. Por exemplo, a meta compulsória de descarbonização de 2023 estabeleceu a necessidade de compra e aposentadoria de 37,47 milhões de CBios até 31 de março deste ano. No encerramento da safra, em 31 de março, havia cerca de 53,63 milhões de créditos, atestando uma oferta muito superior àquela necessária para o cumprimento das metas dos distribuidores. Hoje, estão certificadas no RenovaBio cerca de 320 empresas, que representam 90% da produção de biocombustível no Brasil, denotando o comprometimento ininterrupto do setor com as metas de descarbonização do país. A Política Nacional de Biocombustíveis transformou o Brasil no único país do mundo que mede a intensidade de carbono dos biocombustíveis usina a usina. Todos as demais nações usam aproximações. Nada contra, não está errado, mas nós, aqui, medimos. E isso nos permite uma coisa fundamental: sabemos que o etanol brasileiro já tem a intensidade de carbono mais baixa do mundo. Por esse motivo, o Renovabio colocou o Brasil em evidência no exterior, e tem chamado a atenção de outras nações, especialmente aquelas que buscam uma expansão da capacidade instalada de energias renováveis. Estamos servindo de inspiração para outros países na busca pela mobilidade de baixo carbono.
O setor contribui também, fortemente, na produção de energia elétrica. E, nesse sentido, a Unica criou o selo verde para empresas que consomem eletricidade a partir de fontes renováveis. Como tem percebido esse cenário no país?
Evandro Gussi – A Unica realizou um levantamento muito interessante, baseado em dados da Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica], que nos mostra um cenário favorável para 2024 no que diz respeito à geração de bioenergia em geral. A previsão é que a biomassa acrescente 1.125 MW à matriz, que é o maior valor desde 2013 e representa 12% do acréscimo de capacidade instalada no país. Para 2025, no entanto, a previsão é que a biomassa represente apenas 2% dos 11.918 MW previstos para serem instalados no Brasil. Esse cenário nos mostra que precisamos de políticas de Estado que incentivem a geração de bioeletricidade, com criação de leilões regulados para o setor da biomassa e de regulamentações que possam fortalecer o mercado livre.
A Cocred está completando 55 anos de história. Começou pelas mãos de 106 produtores rurais, com predominância da cana, e hoje tem mais de 73 mil cooperados. Para você, qual a importância do cooperativismo financeiro para o fomento à agricultura brasileira e para o setor sucroenergético?
Evandro Gussi – O cooperativismo é um modelo de negócio com uma estrutura de governança bastante interessante para o agronegócio brasileiro, oferecendo ao produtor condições necessárias para inserção da produção no mercado, de forma competitiva. O cooperativismo gera desenvolvimento econômico, emprego e renda, ao mesmo tempo em que estimula a inovação tecnológica e o empreendedorismo no campo. Ao completar 55 anos de história e alcançar mais de 70 mil cooperados, a Cocred demonstra a força e a seriedade com que vem trabalhando ao longo das últimas décadas. Instituição nenhuma chega a tais marcos sem que, por trás dela, existam pessoas de fibra executando processos com alto profissionalismo. Deixo aqui os meus parabéns à Cocred e a todos os seus cooperados.
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