Integração Lavoura-Pecuária-Floresta está conectada a práticas sustentáveis

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta está conectada a práticas sustentáveis

Guilherme de Oliveira Passos é de Brodósqui-SP, cooperado da Sicoob Cocred na vizinha Batatais e sócio de uma propriedade rural que está a mais de 2 mil quilômetros de casa. A Fazenda Nova Sorocabana, de dez mil hectares, fica em São Felipe D’Oeste, Rondônia.

Lá, ele e os irmãos, Márcio e João Victor, mantêm um plantel de 15 mil cabeças de gado Nelore, que eram o foco do negócio até dois anos atrás, quando decidiram inserir a agricultura. Começaram a plantar soja e uma safrinha de milho, que alternam com parte da engorda do gado. Tudo na mesma área.

Eles são adeptos da ILP (Integração Lavoura-Pecuária), que, no caso da Nova Sorocabana, funciona assim: após a colheita dos 3.400 hectares de soja, o solo, bem nutrido, dá lugar ao milho safrinha entre janeiro e fevereiro. Assim que o milho é colhido, é semeado capim braquiária, para receber os animais por cerca de 90 dias entre maio e setembro. Quando eles saem, a área é adubada para que a soja seja plantada novamente.

Essa virada de chave nas atividades da propriedade trouxe ganhos, segundo Guilherme. O primeiro é que a “cama”, mistura da palhada do capim com material orgânico do gado, que fica no solo após a atividade pecuária, mantém a umidade do solo, condição favorável para o plantio da soja. O segundo é que os animais ganham, no pasto, de 1,2 a 1,3 quilos por dia, quase o mesmo peso obtido no confinamento (1,5 kg/dia). Mas há uma diferença significativa nos custos. “São bem menores na pastagem. Então, com a integração, ganhamos praticamente um confinamento, mas gastando bem menos”, conta Guilherme.

35 milhões até 2030

A recente adesão da família Oliveira Passos ilustra a expansão dos sistemas de integração entre lavoura, pecuária e floresta (ILPF) no Brasil. De acordo com a Rede ILPF, houve um grande salto nos números de 17 anos para cá, especialmente na última década. Em 2005, essa tecnologia não chegava a dois milhões de hectares no país. Em 2015, atingiu 11,4 milhões e, em 2021, 17,4 milhões. Na safra 2022/23, deve ultrapassar a marca dos 19 milhões e, até 2030, a projeção é de 35 milhões – o que representaria o dobro de 2021, com um crescimento médio de 1,7 milhão de hectares por ano.

Entre os sistemas ILPF, que consistem em integrar, pelo menos, dois componentes da sigla, a ILP é, disparada, a mais utilizada no território nacional, com 83% das áreas de integração. Na sequência, vem a ILPF, que agrega o plantio de árvores nativas e exóticas para oferecer sombra aos animais, com 9%. Depois, Pecuária-Floresta, que ocupa 7%, e Lavoura-Floresta, com 1%.

“A inclusão do componente florestal, seja no sistema completo ou em integração só com a lavoura ou a pecuária, ainda é um desafio, mas o interesse de produtores e empresas de base florestal vêm crescendo significativamente”, afirma Renato Ribeiro Rodrigues, especialista em mudanças climáticas e diretor, na América Latina, da Regrow, uma startup americana que mensura as emissões de gases de efeito estufa e o sequestro de carbono do solo para projetos de crédito de carbono na agricultura.

O Mato Grosso do Sul é o estado que mais utiliza a integração, mas, segundo Rodrigues, Minas Gerais e São Paulo, onde estão as agências da Cocred, adotam ILPF em larga escala. Em MG, a área ocupada pelos sistemas corresponde a 8,3% do total usado pela agropecuária, enquanto, em SP, o índice é de 8,8%. “Os dois estados ainda têm grande potencial para expansão da ILPF, com destaque para o uso do componente florestal no norte de MG e a ILP como recuperação de pastagens degradadas no oeste paulista”.

Guilherme de Oliveira Passos (Foto: Acervo pessoal)

Indispensável

O Grupo Vilela de Queiroz (GVQ), com sede em Barretos e mais de 60 anos de atuação, trabalha com ILP desde 2013, alternando cultivo de milho com um capim braquiária, para recria intensiva do gado. Com produção agropecuária em vários estados brasileiros, o grupo, também cooperado da Cocred, implantou a integração quando decidiu intensificar a conversão de áreas de pastagens degradadas para a agricultura.

O diretor de operações, o engenheiro agrônomo Fabio Souza, afirma que foi identificada a oportunidade de fazer recria intensiva após a colheita do milho para evitar que a área ficasse ociosa durante três meses. “Implantamos o sistema de ILP para que pudéssemos, além de usar a área, fazer uma palhada de qualidade para o sistema de plantio direto, reduzindo a temperatura da superfície do solo, aumentando a matéria orgânica, a retenção de água no solo e a nossa produção de grãos”.

Os mais de 5 mil hectares de áreas integradas do GVQ estão nos estados de Mato Grosso e Rondônia. Fabio diz que o sistema deve ser ampliado, considerando que é praticamente indispensável para propriedades que trabalham com pecuária e agricultura, visando a uma produção sustentável, de carne com baixo carbono. Isso porque, com a integração, o ganho de peso dos animais é mais rápido, o que diminui a permanência deles na fazenda, contribuindo para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

“Além dos ganhos operacionais e financeiros na propriedade, tem-se o ganho de uso de solo por todo o ano, o que, causa, consequentemente, menor impacto ambiental”, explica Souza. Mas ele alerta que não existe uma ‘receita de bolo’ para a implantação do sistema. “Tem que levar em consideração as características climáticas, solos, etc, de cada região e, após um bom diagnóstico, definir qual o melhor tipo de forragem e a categoria de animal, para que se gere o maior valor possível para a propriedade”.

Fábio Souza (esq.), com Ítalo Bordoni, gerente da fazenda em Rondônia (Foto: Divulgação)

Políticas públicas

A ILPF está presente em diversas políticas públicas brasileiras, como o Plano ABC (Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), Plano Safra, Pronaf (Programa Nacional da Agricultura Familiar), além de uma específica: a Política Nacional de ILPF, criada pela Lei Federal nº 12.805, de 2013. Segundo Renato Rodrigues, esses programas são fundamentais para que a adoção do sistema possa crescer conforme as projeções. Ele destaca, também, a importância dos investimentos em pesquisa, assistência técnica, ações do setor privado, bem como em linhas de crédito, expertise da Cocred.

“É preciso fazer um investimento inicial sempre que se adota um sistema de produção novo. No entanto, se esse investimento for feito de maneira adequada, aproveitando o que já existe na fazenda, como maquinário, curral etc, e de forma escalonada, uma parte da fazenda a cada ano, o retorno é mais rápido. Claro que o investimento varia de acordo com a condição inicial da propriedade e com o nível de intensificação que se quer para o sistema, mas é possível, e desejável, que seja feito no ritmo do produtor. Há diversas pesquisas da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] que mostram que, quando a implementação é feita adequadamente, os resultados são sempre positivos.”

Desenvolvida no Brasil no início dos anos 1980, como alternativa para recuperação de pastagens degradadas, a integração se tornou, na visão de Rodrigues, considerando os aprimoramentos que foram feitos de lá pra cá, um dos sistemas mais completos e sustentáveis que existem. “Seu sucesso é tão grande que já vem sendo adotada em outros países da América Latina, além dos EUA, Austrália e nações da África e da Europa”.

Outra boa notícia é que o sistema está conectado às práticas de ESG (Ambiental, Social e Governança), que, para o especialista, tomarão em breve toda a pauta política, dos mercados e dos consumidores para o setor agropecuário, visando à geração de créditos de carbono e a diminuição do aquecimento global. “Nesse contexto, a ILPF é a tecnologia com maior potencial de geração desses créditos. Isso significa renda adicional ao produtor e acesso a mercados diferenciados”, explica Rodrigues.

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A ILPF é um dos assuntos da edição 42 da Revista Cocred Mais. Para conferir o conteúdo completo, clique aqui.

Renato Rodrigues (Foto: Acervo pessoal)

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