Quando Laura Vicentini e Rodrigo Spina começaram a namorar, em 2009, no último ano da faculdade de agronomia, buscavam uma relação sustentável. Em todos os aspectos. Mas ainda não imaginavam que o brinde à felicidade deles seria feito com… cachaça! A bebida, antes discriminada, passou, a partir da década de 1990, a almejar outros patamares de aceitação, agradando paladares refinados e promovendo o Brasil no exterior.
Depois de concluir o curso, na Unesp de Jaboticabal-SP, Laura foi trabalhar em usinas de cana-de-açúcar. Em um período de dez anos, passou por três, e mais uma multinacional de biotecnologia. Rodrigo, cooperado da Sicoob Cocred desde 2014, era também piloto de helicóptero, e optou por continuar voando. Com frequência, saía do litoral para levar pessoas que precisavam se deslocar até bases de exploração de petróleo.
Até que, em novembro de 2020, o casal decidiu alçar novos voos. E, para isso, bastou olhar para uma propriedade rural em Batatais-SP, herdada do avô materno de Rodrigo, José Augusto Tomazella. O lugar já abrigava, havia três anos, a Spinagro, empresa voltada à produção de mudas pré-brotadas de cana-de-açúcar, um processo que aproveita apenas as gemas e dispensa os toletes.
Adeptos da produção sustentável e preocupados em dar uma destinação adequada aos resíduos da produção, o casal se perguntou: “Por que não usar os toletes para fazer cachaça?”. A ideia virou prática já em 2021. Nascia a cachaça SôZé, em homenagem a José Augusto, que faleceu em 2008 e, curiosamente nunca bebeu cachaça, mas era comprometido com a preservação ambiental muito antes de se falar em sustentabilidade.
“Ele plantava mudas de árvores para proteger as nascentes. Sabia que, para produzir bem, tinha que ter água”, conta Spina. José Augusto também era atento ao bem-estar animal. “Colocava música para as vacas ouvirem”, lembra o neto. A estratégia tinha por objetivo levar tranquilidade ao rebanho. E devolvia mais baldes de leite.
Os ensinamentos do avô de Spina seriam um impulso para a adoção de outras medidas. Como a SôZé envasa a parte mais nobre, o coração do processo, para garantir a melhor qualidade possível, o início e o final da destilação teriam de ser descartados, por conterem elementos não desejáveis ao consumo. Para que essa sobra não seja inutilizada, é transformada em etanol, que abastece a frota leve da fazenda.
Bagaço e vinhaça também são reaproveitados. Eles se juntam à cama de frango de nove aviários da propriedade e viram adubo para aplicação na lavoura de cana, que, quando extraída, gera cerca de 4,5 milhões de mudas pré-brotadas por ano, completando o ciclo.
A SôZé não é vendida no Brasil. Todo o volume produzido – cerca de 60 mil litros por safra – é exportado para os Estados Unidos e países europeus, como Portugal, Alemanha, Bélgica e Áustria. A bebida é bem aceita lá fora justamente pela proposta sustentável e da elevada qualidade. O casal tem planos de dobrar a produção já na próxima temporada.

Doses de sabor
A estratégia de apostar em uma bebida com características únicas, contribui para consolidar um novo momento da cachaça no país. Antes marginalizada, a bebida foi a protagonista de um movimento de valorização que teve início há pouco mais de 30 anos e tem conseguido, aos poucos, se desvincular de uma ligação exclusiva com o alcoolismo.
Vicente Bastos Ribeiro, vice-presidente do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), lembra que o preconceito tem raízes históricas. A bebida, fabricada no Brasil desde o início da colonização portuguesa, era um artifício para “acalmar” os escravos, o que foi decisivo para que ficasse associada às classes menos favorecidas, como fuga de problemas financeiros ou conflitos pessoais.
O cenário começou a mudar a partir dos próprios produtores, que perceberam ser possível buscar reconhecimento para a cachaça como um produto que representa todo o país. Nesse sentido, a fundação do Ibrac, em 2006, foi determinante. Uma das atuações do instituto é pela construção contínua de uma identidade nacional, que permita a defesa dos interesses do segmento.
Ribeiro é produtor de cachaça em Nova Friburgo-RJ. Coloca no mercado 450 mil litros por ano, dos quais 60% são exportados para a Europa. Uma grande conquista para quem acompanhou as primeiras tentativas de convencer autoridades de outros países que a cachaça era sinônimo de brasilidade. Os Estados Unidos, por exemplo, demonstravam resistência. Queriam que nossos rótulos tivessem a inscrição “rum brasileiro”.
“Os americanos nos alertaram que, primeiro, precisaríamos reconhecer internamente a nomenclatura cachaça. Não tínhamos, até então, nenhuma lei para isso”, explica. O decreto do Governo Federal veio no início dos anos 2000, o que possibilitaria aumentar a intensidade das reivindicações. Mas o consentimento do Tio Sam viria apenas em 2013.
Ribeiro explica que, atualmente, sete países aceitam a cachaça como uma bebida tipicamente brasileira, o que exige ações para mudar essa realidade e, consequentemente, ampliar mercados. Apesar da expansão do interesse internacional, as exportações ainda representam uma parcela pequena da produção.
De acordo com o mais recente Anuário da Cachaça 2024, os engenhos do país fabricaram, em 2023, 226 milhões de litros – 80% por associados do Ibrac. As exportações, para 76 países, apesar de terem atingido um valor recorde, de US$ 20,2 milhões, foram de 8,6 milhões de litros (3,8% da produção).
O vice-presidente do Ibrac avalia que há potencial para aumentar esse número, sobretudo por causa da preocupação em aprimorar as práticas. Ribeiro não acredita, porém, em um salto expressivo na quantidade de produtores, que somam cerca de 1.217, mas em produtos ofertados, conforme apontado pelos próprios anuários. Em 2020, foram produzidos no Brasil 3.533 tipos de cachaça. No ano seguinte, 4.969. E, em 2023, 5.998.
“Com a preocupação em combater o consumo exagerado de álcool no Brasil, a cachaça não vai se destacar pela quantidade, mas pelo valor. Não queremos que as pessoas saiam bebendo loucamente, mas que busquem satisfação. E isso tem acontecido com as cachaças premium, apreciadas em coquetelarias, comunidades de bartenders, que dão versões criativas para a cachaça”, explica.
Além de incentivar o consumo responsável, o Ibrac enfrenta outro desafio: a concorrência desleal de produtores não legalizados. Sem registros, as bebidas clandestinas não têm sua composição rastreada e podem utilizar procedimentos ilícitos, o que representa riscos à saúde humana e ao meio ambiente.

Qualidade dupla
Em uma fazenda de Ribeirão Bonito-SP, o otimismo é em dobro. Isso porque Fernando Cicarelli e Luiz Antônio Vanalli produzem, no mesmo engenho, duas marcas: a Reserva Dourada e a Vanalli Beija-Flor. Ambas surgiram de histórias familiares, mas cada uma com suas peculiaridades.
Desde 1940, a fazenda produz cana-de-açúcar. Pelas mãos de Vanalli, uma parte virou cachaça há quase 40 anos. Durante este tempo, a fabricação foi aprimorada, aumentando em quantidade e qualidade. Tanto que, em 2004, a Vanalli Beija-Flor foi considerada a melhor cachaça do estado de São Paulo em concurso apoiado pela Unesp.
O título abriu portas no Brasil e no exterior. Em 2005, foram exportadas as primeiras garrafas para a Inglaterra. Na sequência, vieram outros prêmios: primeiro lugar no “Festival da Cachaça Cabana Caipira”, primeiro lugar no “Concurso Paulista de Cachaça Artesanal” e segundo lugar no “Concurso Internacional de Bruxelas”.
Já a Reserva Dourada foi concebida em outra fazenda, em 1960. Cicarelli conta que a cana era plantada para proteger cafezais e depois processada para as comemorações das safras de café. O proprietário da fazenda, Deolindo Antero de Almeida, avô dele, produzia a cachaça em um pequeno alambique de cobre ao lado do terreiro de secagem do café. A produção era colocada em barris de carvalho, guardados em um armazém.
Quando as safras chegavam ao fim, a cachaça era compartilhada com os funcionários. Esse elo permaneceu tão forte que a Reserva Dourada, além da cachaça, possui uma produção de cafés gourmet: em grãos, torrado e moído, e cappuccino.
Mas, em 2001, como dois tios de Cicarelli decidiram se dedicar exclusivamente ao café, a produção de cachaça migrou para o engenho dos Vanalli, por causa da amizade de mais de 25 anos entre as famílias. Desde então, as duas marcas passaram a ser envasadas no mesmo local. Um total de 200 mil litros por ano, destinados ao mercado interno.
Cooperado da Cocred desde 2022, Cicarelli diz que a cooperativa ofereceu as melhores condições para a continuidade dos negócios. “Temos um relacionamento muito bom. Foi a única instituição financeira que abriu as portas para a nossa empresa. E a agência foi a mais receptiva, atendendo superbem, com a menor burocracia possível”, afirma.
A parceria com uma instituição financeira sólida traz perspectivas bastante favoráveis. Os empresários planejam expandir ainda mais a produção para o mercado interno e buscar novamente o externo, impulsionados pela reputação de alta qualidade e do sabor único que oferecem. Um diferencial e tanto.
Entre os desafios para isso, está, na visão de Cicarelli, o de mostrar ao consumidor que a cachaça é uma bebida carregada de história, cultura, qualidade e versatilidade, e que pode tanto ser apreciada pura quanto na elaboração de drinques, como a nossa tradicional caipirinha, conhecida mundialmente.
“Nas últimas décadas, a cachaça ascendeu a níveis nunca antes imaginados pelos produtores. Um produto que sempre foi marginalizado, diminuído e menosprezado, hoje é oferecido em encontros familiares, políticos e reuniões de negócios por todo o mundo, o que mudou o olhar sobre a bebida”, finaliza.

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