Psicologia Financeira estuda as relações entre saúde mental e o bolso

Psicologia Financeira estuda as relações entre saúde mental e o bolso

Raul Andrucioli gastava demais. O adolescente de 18 anos, filho único, que mora com a mãe e o pai no centro de Sertãozinho-SP, admite que pensava apenas no amanhã. O hoje não tinha espaço na agenda. “Amanhã, vou sair, vou fazer isso, aquilo, aquilo outro… Às vezes, eu recebia um dinheirinho dos meus pais e, no outro dia, ele já tinha acabado”.

Para a Psicologia, pensar no amanhã, ser otimista, não é prejudicial. Muito pelo contrário. Mas, no caso de Raul, o comportamento era exagerado. Para situações assim, em que pensamentos e sentimentos impactam nas relações com o dinheiro e vice-versa, existe a Psicologia Financeira, que estuda maneiras para lidar com as finanças de forma saudável.

Esse ramo do conhecimento insere o olhar sobre a Psicologia dentro da Economia, para avaliar a influência de comportamentos familiares, de fatores psicológicos e de aspectos culturais, como hábitos de consumo, no planejamento de gastos e receitas – o que aumenta a importância da educação financeira.

Raul admite que não encontrava um equilíbrio entre os desejos e a necessidade de se programar para conquistá-los. Queria desfrutar o futuro sem passar pelos desafios do presente.  Isso começou a mudar quando ele se matriculou no Conta com a Cocred Jovem, curso de educação financeira voltado a jovens de 16 a 22 anos que terminaram ou cursam o Ensino Médio, e que moram em um dos municípios onde a cooperativa tem agências.

Foi na escola que Raul soube da abertura das inscrições. Decidiu que era o momento de frear o “descontrole”. Os prêmios distribuídos aos estudantes com os melhores desempenhos no curso foram outro motivador. “Pensei: ‘se eu ganhar, vai dar uma boa aliviada. Os sonhos vão ficar mais perto”. E ficaram mesmo. Um deles era fazer uma tatuagem. Tarefa concluída com sucesso.

O comportamento foi mudando da água pro vinho. Ou melhor, da falta de organização das finanças para o hábito de poupar. Ele não só passou a guardar tudo o que sobrava como a fazer esforço para sobrar. E não foram necessárias grandes mudanças.

“Pequenas ações foram suficientes, como perguntar se eu precisava realmente comprar algo. Eu já fui aquela pessoa que, todo dia, tinha que arrumar dez reais para comprar alguma coisa. Todo santo dia. Agora, sou rigoroso em relação ao dinheiro. Não a ponto de não gastar nada, mas de saber o valor dele”.

O estudante explica que esse rigor todo tem a ver com o dia em que conheceu os gastos mensais da própria casa. Uma atividade do curso previa listar as receitas e despesas domésticas. Raul tomou um susto. “Falei ‘não é possível que a gente gaste tudo isso’”.

Pela casa toda

A transformação na maneira de ser, resultado imediato de um novo jeito de pensar, foi percebida por toda a família. Não que os pais de Raul, Verônica e Sidney, fossem “gastões”. Pelo contrário, incentivavam o controle. A indisciplina com o dinheiro estava mesmo no filho.

Segundo Verônica, o Conta com a Cocred Jovem foi um “empurrão” para que Raul adotasse outra postura. “O curso foi muito importante, pois ele teve a verdadeira noção do valor do dinheiro: como pode ser gasto, se é necessário gastar, como pode ser poupado, inclusive para uma reserva de emergência”.

“A mudança foi mais da minha parte do que dos meus pais”, emenda Raul. Comecei a querer saber mais as coisas da casa: quanto cada um recebe, quando recebe, quando vencem os boletos…”.

Com o filho mais atento às contas do mês, houve, segundo Verônica, benefícios à saúde mental, espiritual e física da família. “É através de mudanças no comportamento que conseguimos obter algo de que necessitamos, que nos acrescenta, como uma viagem”, diz a mãe de Raul. Manejar bem o dinheiro poupado tem gerado, ainda, uma reação em cadeia. Tanto que Raul e os pais passaram a pensar mais em possibilidades de investir, fazê-lo render.

Raul Andrucioli

Psicologia Financeira

Segundo o psicólogo Celso Sant’Ana, mudanças como a de Raul não são fáceis de acontecer. Segundo ele, o ser humano tende a ser imediatista, além de viver em uma sociedade que supervaloriza o poder advindo das relações econômicas. E também porque grande parte dos brasileiros enfrenta dificuldades financeiras, o que inviabiliza poupar.

“Temos uma população extremamente endividada, com problemas para honrar os compromissos financeiros básicos. Falta, ainda, uma maior democracia na distribuição e no debate da temática da educação financeira. Precisa-se também investir em um mercado financeiro com acesso mais inclusivo e diverso.”

Sant’Ana tem 36 anos, é psicólogo clínico comportamental formado pela Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), em Minas Gerais. Com Mestrado em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fundou, há cinco anos, com a esposa, Naiara, doutora em Finanças e professora de Ciências Contábeis, a empresa “Psicologia Financeira”, uma consultoria que desenvolve, junto com assessorias de investimento, corretoras da bolsa de valores e instituições de ensino para investidores, um trabalho de psicoeducação voltado ao mercado financeiro. Com isso, se tornaram referência no segmento no país.

O psicólogo explica que, ao longo da trajetória profissional, a esposa e ele observaram que boa parte dos problemas emocionais, individuais e familiares está atrelada a problemas financeiros e vice-versa. Nesse contexto, a Psicologia Financeira se refere a um cuidado multidisciplinar tanto da saúde financeira quanto mental dos indivíduos. Ela é um campo extremamente novo, que mistura conceitos da Psicologia Comportamental, das Ciências Contábeis, da Economia e das Finanças para atender pessoas de diversas idades, condições socioeconômicas e histórias de vida.

Sant’Ana é procurado tanto por indivíduos que estão vivenciando problemas emocionais, financeiros e familiares quanto por aqueles que desejam aperfeiçoar seus comportamentos de forma a obter um desempenho mais sofisticado, racional e de alto nível, bem como excelência em seus trabalhos e nas tomadas de decisões financeiras.

Mas como os profissionais podem ajudar essas pessoas? Sant’Ana explica que não basta informá-las sobre a necessidade de poupar 15% da remuneração mensal. É preciso ajudá-las a encontrar motivações e ajustes necessários para isso.

“Primeiramente, promovendo autoconhecimento e a compreensão de que é possível interromper ciclos viciosos de padrões autodestrutivos. Em nossa sociedade atual, o dinheiro representa poder, o qual tem a capacidade real de escravizar nossas emoções, seja pela escassez ou pelo excesso. Na maior parte das vezes, a dor emocional é fruto ou consequência de uma relação financeira inadequada. Assim, é importante que ambos os pontos [finanças e emoções] sejam trabalhados juntos”.

Ainda segundo ele, o trabalho do psicólogo financeiro busca desmistificar a ideia de que poupar é algo fácil e que demanda, somente, o interesse das pessoas. “Sabemos que não é tão simples assim. A postergação de desejos é uma dificuldade intensa e real do ser humano. Precisamos compreender os gatilhos emocionais que levam ao consumo exacerbado, por exemplo, e a promoção de ajustes comportamentais que afastem as pessoas desses gatilhos. Por outro lado, por meio também do autoconhecimento e ajustes comportamentais, ajudamos as pessoas a obter alta performance profissional e na tomada de decisão financeira”.

Após 2020, a empresa de Sant’Ana e Naiara registrou aumento de 230% na procura, número que, em parte, pode ser explicado pela pandemia de Covid-19, que apontou para um cenário em que empresas e indivíduos buscam melhor preparação para incertezas e situações desafiadoras. Ele faz um apelo para que instituições financeiras e empresários de liderança do país não deixem de dar atenção a conceitos como adoecimento mental e financeiro da população, endividamento, em especial entre os jovens, além de políticas de consumo consciente e de prevenção ao suicídio.

E quando começar a cuidar da mente e das finanças? Conforme Sant’Ana, desde a educação básica, com mais intensidade assim que as pessoas passem a ter mais responsabilidades financeiras e a gerir renda – como é o caso dos participantes do Conta com a Cocred Jovem. “A ideia não é somente trabalhar na correção dos desafios, mas, principalmente, no estabelecimento de um curso de vida próspero, emocional e financeiro”.

Celso Sant’Ana

Desde os primeiros dias

O agricultor Lucas Luiz Vilela Lopes, cooperado da Cocred em Sertãozinho, e a esposa dele, Jacqueline Pelicioni, com quem é casado há 12 anos, decidiram, porém, não esperar a filha única e recém-nascida, a Isadora, crescer. Abriram uma Poupança Kids na cooperativa logo nos primeiros dias de vida dela. “Quando soubemos da gravidez, a primeira coisa em que pensamos foi na saúde da Isadora. Por isso, fazemos de tudo para garantir a ela um futuro financeiro seguro”.

O pai de Isadora conta que um dos principais incentivos para poupar veio do pai dele, Luiz Carlos Lopes, também produtor rural. Desde criança, Lucas o acompanhava em visitas na cooperativa, com a sensação de que ali era uma segunda casa. “Ele sempre nos educou a poupar para prosperar. Sempre nos deu uma educação financeira, mostrando que o sustento vem do trabalho e da responsabilidade”.

Lucas concorda que o controle das emoções impacta na forma como tocamos as finanças. E garante que esse será um dos valores passados à filha. “Quero mostrar a ela que, independentemente de quais sejam as batalhas diárias, é sempre necessário poupar, caso seja possível, pois não sabemos o que o futuro nos prepara”.

Conta com a Cocred Jovem

Nas três turmas do Conta com a Cocred Jovem que se formaram até agora – uma em 2021 e duas em 2022 –, mais de 350 jovens foram impactados. A proposta de implantar um curso de educação financeira na Cocred surgiu em 2019, quando, durante a elaboração do Planejamento Estratégico, o Conselho de Administração e a diretoria da cooperativa perceberam que não havia, em Sertãozinho, onde fica sua sede, uma instituição que oferecesse ações parecidas.

Pesquisas que demonstravam o desconhecimento ou o desinteresse de jovens por finanças foram reforçando a ideia de atender à faixa etária. Ainda em 2019, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) revelou que 75% dos brasileiros de 18 e 30 anos não controlavam a vida financeira – contra 46% da população em geral. Em 2018, o Banco Central havia apontado que 69% de todos os brasileiros não haviam guardado dinheiro nos últimos 12 meses e 56% não faziam orçamento doméstico.

Também foi considerada a média histórica de jovens desempregados, recorrentemente maior que outros grupos. Em 2019, a taxa de desocupação média entre pessoas de 18 a 24 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), era de 23,8%, contra 11% da população em geral.

A falta de trabalho, que resulta em dificuldades financeiras, pode ser uma das causas de problemas emocionais. O desequilíbrio da mente, por sua vez, tende a provocar atitudes compulsivas de consumo e comprometer as economias. Segundo o Instituto de Políticas Públicas de Dinheiro e Saúde Mental do Reino Unido, por exemplo, 93% das pessoas com instabilidades emocionais no mundo gastam bem mais do que seria ideal.

No Brasil, segundo a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), 58,4% têm as finanças como um motivo de estresse e que interfere diretamente nas relações familiares. E 60% dizem não aproveitar direito a vida pela maneira como tratam o dinheiro.

Com o Conta com a Cocred Jovem, que começou com jovens de Sertãozinho e depois foi estendido aos que moram nos outros municípios onde a cooperativa está presente, uma galera começou a furar essas estatísticas. “É um curso que a você se sente animado a fazer. Por isso, recomendo demais. Demais, demais, demais, demais, demais…”, declara Raul Andrucioli.

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A Psicologia Financeira é um dos assuntos da edição 42 da Revista Cocred Mais. Para conferir o conteúdo completo, clique aqui.

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