Sustentabilidade depende da criação de uma “Cultura ESG”

Sustentabilidade depende da criação de uma “Cultura ESG”

Criar uma “Cultura ESG”, que permita revisar frequentemente as práticas sociais, ambientais e de governança, é um dos principais caminhos para que as decisões tomadas nas organizações e pelos indivíduos sejam pautadas pela possibilidade de promover transformações na sociedade.

Essa é uma das percepções de Carolina Pimentel, CEO da Geração Social, consultoria especializada em ESG e Responsabilidade Social que integra, como parceira oficial da Great Place to Work (GPTW) no Brasil, o Ecossistema Great People.

A GPTW, por sua vez, é uma consultoria de abrangência global que apoia as organizações para que elas consigam resultados melhores por meio de alto desempenho, práticas inovadoras e uma relação de confiança com colaboradores e a comunidade.

O trabalho da GPTW começou na década de 1980 com a criação do certificado “Melhores Lugares para Trabalhar”, que foi obtido pela Sicoob Cocred nos dois últimos anos (2021 e 2022) e que indica, após uma minuciosa pesquisa com os colaboradores, os clientes com as melhores notas em critérios relacionados ao ambiente de trabalho, ao clima organizacional e à gestão de pessoas.

Para Hilgo Gonçalves, embaixador da GPTW no Brasil e diretor da Regional do Interior de São Paulo, o aprimoramento das condições ligadas a esses critérios passa, hoje, necessariamente, pelas práticas de ESG, sigla que, em português, se refere a “Meio Ambiente, Social e Governança” e designa uma série de medidas que visam conectar empresas, cooperativas e instituições às demandas sociais, e não apenas ao objetivo do lucro.

“Essas práticas são muito importantes para melhorar a vida das pessoas agora e para as gerações futuras. É por isso que buscamos parcerias estratégicas, como a Geração Social, para inspirar ainda mais os clientes da GPTW a aderirem ao ESG. Quando as organizações assumem esse compromisso, elas se tornam melhores para os negócios e para a sociedade”, afirma Gonçalves.

Diante disso, a Revista Cocred Mais foi em busca de aprofundar a compreensão sobre o assunto. A diretora e fundadora da Geração Social, Carolina Pimentel, que nos concedeu a entrevista, acredita que as práticas de ESG serão fundamentais para a construção de um planeta cada vez mais sustentável. E que, entre os principais desafios, está o combate às desigualdades sociais, às mudanças climáticas e à corrupção.

Confira, a seguir, os principais trechos da conversa.

 

Cocred Mais | Estamos vivendo um tempo de muitos desafios relacionados a questões climáticas, saúde, educação, conflitos armados, relações humanas complexas, entre outros. Como as práticas ESG entram nesse cenário e podem contribuir para transformar nosso jeito de viver?  

Carolina Pimentel | O ESG é algo revolucionário, com enorme poder de transformação na nossa sociedade. Atualmente, vivemos em um contexto de riscos e impactos sistêmicos e as práticas ESG serão essenciais para que possamos transformar para melhor nossa sociedade, os negócios e as pessoas. Para tanto, é necessário que estejam alinhadas com uma estratégia maior e que os riscos, impactos e oportunidades sejam buscados e conhecidos pelas empresas. É nesses pontos, no ganho de consciência e de sua comunicação, e na implementação, mensuração e avaliação de práticas ESG, que podemos construir um futuro bem mais sustentável.

 

Cocred Mais | O ESG se refere a práticas ambientais, sociais e de governança. Quais seriam os maiores desafios em cada um desses aspectos? E como mantê-los integrados?

Carolina Pimentel | Na minha visão, dentro da questão da governança, o principal desafio é a transparência e o combate à corrupção. Segundo estimativas da ONU [Organização das Nações Unidas], anualmente US$ 3,6 trilhões são pagos em subornos e roubados em corrupção. Esse valor corresponde a mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) global, um montante que poderia ser utilizado para ações positivamente impactantes, sociais e ambientais. A maior transparência também contribui para a melhoria nas estratégias das empresas e tomadas de decisões pelas partes interessadas. Na questão ambiental, frear as mudanças climáticas exigirá comoção global e é essencial para evitar um contexto de insegurança alimentar, que pode ocorrer caso haja o aumento de temperatura na Terra superior a 1,5 grau em relação aos níveis pré-industriais. Já na questão social, o maior desafio é a gigante desigualdade social e de oportunidades. Milhões de pessoas não têm acesso a saúde, alimentação, moradia, trabalho e salário digno, educação, segurança e direitos humanos, simplesmente por terem nascido em uma família ou em um país pobre. Para mim, a forma de integrar os três pilares é o desenvolvimento de uma “Cultura ESG”, ou seja, que as estratégias, as políticas e as práticas sociais, ambientais e de governança sejam revisadas, com base em impactos, riscos, importância para partes interessadas, e reconhecidas e vivenciadas por todos, permitindo tomadas de decisões melhores pelas empresas e pelos indivíduos, levando a uma transformação em nossa sociedade.

 

Cocred Mais | Apesar da maior divulgação do conceito, o ESG é conhecido por um universo ainda pequeno de pessoas. Como ampliar a participação nesse processo?

Carolina Pimentel | A alta complexidade do sistema em que vivemos e a baixa consciência dos riscos que corremos e dos impactos que causamos são, para mim, os maiores desafios. Para mudar essa realidade, é essencial a mudança de nosso sistema educacional, visando ao desenvolvimento de novas competências socioemocionais nos indivíduos, como pensamento crítico, empatia, entre outras, e do sistema legal, para ampliar a responsabilidade das empresas sobre suas ações e seus impactos, além da ampliação do acesso e da utilização de informação para a tomada de decisão de todos.

 

Cocred Mais | O que o ESG tem mudado na cultura das organizações?

Carolina Pimentel | Está ampliando a visão de longo prazo e despertando uma reflexão necessária de que aumentar o faturamento a qualquer custo não se sustenta mais. Também tem trazido maior diversidade, inovação, transparência e diligência.

 

Cocred Mais | Como tem sido a adoção do ESG especificamente no contexto brasileiro?

Carolina Pimentel | No Brasil, muitas empresas já estavam habituadas a praticar a “responsabilidade social”, que incluía diversas ações especialmente em quesitos sociais e ambientais, mas sem necessariamente estarem amarradas a uma estratégia maior da empresa, de forma que percorressem diversos setores e agentes, e estivessem focadas nos aspectos mais relevantes para o negócio e para a sociedade, com um acompanhamento sério de indicadores, metas, performance e planos de ação, bem como de sua avaliação. O caminho que essas empresas estão percorrendo agora é mapear o que já têm e identificar novas oportunidades, como a adesão a compromissos globais, para terem uma visão maior do contexto de sustentabilidade, a definição dos seus temas materiais, envolvendo análise de riscos, impactos e engajamento de interessados, a criação de comitês de sustentabilidade ligadas ao conselho da empresa, a elaboração e revisão de estratégias, políticas, processos e planos de ação ligadas a aspectos ESG e o relato de desempenho nesses quesitos.

 

Cocred Mais | Como estamos caminhando em relação a outros países? Avançando? Atrasando?

Carolina Pimentel | Se compararmos o Brasil com a Europa, estamos atrasados, tanto em relação à cultura ESG quanto em relação à legislação e práticas. Na Europa, os investidores têm tido uma postura muito firme em relação a métricas e práticas robustas de ESG, inclusive penalizando empresas que não estão alinhadas com os critérios. Além disso, normas têm sido criadas, que fomentam ainda mais os investimentos ESG, como o regulamento para divulgação de finanças sustentáveis. Lá, também é mais comum do que aqui ver a liderança empresarial ser avaliada, e remunerada, com base nos critérios ESG. Esses três pontos fazem uma grande diferença no desenvolvimento de estratégias e práticas ESG e na velocidade com que a sua implantação ocorre aqui no Brasil.

 

Cocred Mais | Fechando um pouco mais o foco, como o cooperativismo e, de forma mais específica, o cooperativismo financeiro nacional tem lidado e vai lidar com o mundo ESG, com os públicos externo e interno?

Carolina Pimentel | O estudo Panorama do ESG nas Cooperativas de Crédito, realizado pela PWC, aponta que o tema ESG tem sido considerado muito importante para o segmento (70%) e relevante para atrair e manter cooperados (51%); que quase a totalidade de cooperativas de crédito já tem políticas socioambientais (98%) e muitas delas compromissos assumidos (76%). Além disso, é total (100%) a quantidade de dirigentes que avaliam ou já possuem produtos financeiros para fomentar pautas socioambientais, tema que tem crescido muito no interesse dos cooperados. Analisando os quesitos ESG, no pilar governança, o principal tema focado tem sido o gerenciamento de riscos (80%); no social, educação financeira para a comunidade local (85%); mas, no ambiental, as cooperativas cumprem apenas parcialmente boas práticas de gestão (74%). Dois grandes pontos precisam de atenção na temática ESG por parte das cooperativas: a definição de metas específicas, tendo em vista que mais da metade (52%) ainda não possui, e a adoção de melhores práticas para monitoramento de suas ações socioambientais, bem como de seus cooperados.

 

Cocred Mais | Que benefícios isso vai trazer para as cooperativas?

Carolina Pimentel | Eles envolvem a melhoria no gerenciamento de riscos, essencial para manter a estabilidade do sistema financeiro, a ampliação da geração de valor e impactos positivos para a empresa, seus colaboradores, cooperados, comunidade e outras partes interessadas, aumentando também sua reputação e credibilidade perante esses públicos.

 

Cocred Mais | Como você avalia a participação e a importância da Cocred nesse contexto?

Carolina Pimentel | Notamos um grande comprometimento das lideranças do interior do país para buscar, cada vez mais, conhecimentos e práticas sobre o ESG para aplicar em suas realidades. A participação da Cocred, neste contexto, é essencial. A cooperativa pode ter um papel importante como um agente ativo de transformação de toda sua cadeia de valor, contribuindo para que estratégias ESG sejam não somente criadas e implementadas, mas também mensuradas e avaliadas em toda sua esfera de influência, promovendo cada vez mais impacto positivo em toda nossa sociedade. Para que possamos ter um mundo melhor, precisamos assumir a atitude de protagonismo – “é comigo mesmo” – e ir em busca de mais conhecimento e boas práticas que tragam benefício para todos: colaboradores, negócios e sociedade. E precisamos, para que isso aconteça, cada vez mais ter o que chamamos no GPTW de Líderes for All, ou seja, gestores que inspirem e desenvolvam todos, independentemente do cargo que ocupam e de outras questões ligadas à diversidade. É preciso estar próximo das pessoas, conhecer genuinamente não somente as competências, mas os sonhos dos seus colaboradores. Falar e ouvir. Essa troca é fundamental para promover o engajamento, e um alto engajamento aumenta a produtividade. Melhor para as pessoas. Melhor para os negócios. Melhor para o mundo.

 

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Além dessa entrevista, a edição 42 da Revista Cocred Mais traz outras reportagens sobre cooperativismo e mercado financeiro. Clique aqui e acesse.

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