Nada é mais revelador sobre um território do que a forma como ele se expressa à mesa. Antes mesmo de visitar pontos turísticos ou entender a história local, o visitante cria vínculo pelo paladar. No interior de São Paulo e Minas Gerais, onde tradição, agricultura e hospitalidade caminham juntas, a gastronomia deixou de ser apenas um complemento da viagem para se tornar o próprio motivo do deslocamento.
Esse movimento, cada vez mais consistente, tem transformado propriedades rurais, restaurantes familiares e pequenos negócios em polos de atração turística, capazes de gerar renda, fortalecer identidades e estruturar economias locais. É exatamente isso o que acontece em Brodowski (SP), na fazenda conduzida pelo empresário Rafael Correa Trajano Borges, cooperado da COCRED. Por lá, a experiência começa antes da comida chegar à mesa do cliente.
Pensada para superar o status de unidade produtiva e se configurar como um espaço de vivência, a propriedade, que pertence à família Borges há aproximadamente 200 anos, une produção orgânica, sustentabilidade e turismo. Tudo começou quando Borges morava na Austrália e, ao conhecer uma família que trabalhava com alimentos orgânicos há quatro gerações, entendeu que o valor de um alimento não está apenas no produto final, mas na forma como ele é apresentado ao mundo.
De volta ao Brasil, o empresário encontrou na própria origem a base para um projeto que colocava em prática aquilo que aprendeu fora do país. Na propriedade, já produzia gado de leite, mas diante a um momento de crise na pecuária leiteira bovina, buscou alternativas e encontrou nas búfalas um novo caminho. A decisão de montar um pequeno laticínio marcou o início de uma estratégia focada em diferenciação e valor agregado. Produzir menos volume, mas entregar mais significado.
Hoje, a fazenda opera com produção 100% orgânica, geração de energia solar e eólica, reaproveitamento total de resíduos e uma salumeria moderna, onde embutidos artesanais e queijos são produzidos. Na fazenda local, onde a produção de produtos à base de leite de búfala é o carro-chefe, sustentabilidade não é discurso, mas estrutura de negócio. “Queremos ser referência em venda de proteína animal com alto valor biológico”, afirma Borges.
Com a produção a todo vapor e o negócio estruturado, o passo seguinte dado pelo empresário foi aproximar o consumidor à origem dos produtos. Visitas guiadas, atendimento a grupos fechados, recepção de faculdades em visitas técnicas e o planejamento de uma loja na própria fazenda compõem esse movimento estratégico de turismo gastronômico. O alimento deixou de ser apenas comprado e passou a ser compreendido, vivenciado e valorizado.

Bolinho premiado
Se no campo a experiência começa na origem, na cidade ela pode nascer de um prato. Em Uberlândia (MG), o bolinho de costela angus defumada ao molho de chimichurri, criado pelo restaurante Don Steak, é sucesso de vendas e ativo turístico. Campeão do concurso “Comida Di Buteco 2023”, o prato combina técnica, sabor e memória afetiva. Crocância por fora, suculência por dentro e um preparo que exige tempo e cuidado. Não por acaso, segue como um dos itens mais pedidos do cardápio.
Para o empresário Juliano Gomes, o reconhecimento é resultado de dedicação redobrada. “Sobre o sucesso, acredito que é uma constância de todo um trabalho que vem de encontro com as expectativas de nossos clientes, buscando sempre melhorias em atendimento, mantendo sempre a qualidade do produto”, afirma.
No negócio, o turismo gastronômico tem impacto direto. O Don Steak recebe visitantes de diferentes regiões, atraídos tanto pela premiação quanto pela reputação construída ao longo do tempo. “Sem dúvida o turismo gastronômico traz um impacto muito positivo ao nosso negócio. Fortalece a marca em outras regiões. Temos frequentemente visitas de turistas ou viajantes a trabalho que sempre vêm nos prestigiar”, aponta o empresário.
Esse movimento acompanha o bom momento do município mineiro. Pela quarta vez consecutiva, Uberlândia figurou entre os destinos mais bem preparados para receber turistas do Brasil e do exterior, segundo o Mapa do Turismo Brasileiro 2024, divulgado pelo Ministério do Turismo (MTur). Classificada na categoria A, a cidade está entre as três mineiras mais bem ranqueadas entre 650 analisadas. No país, de 2.242 municípios avaliados, apenas 48 alcançaram essa classificação.
Em Minas Gerais, somente Belo Horizonte e Poços de Caldas obtiveram avaliação semelhante, o que torna Uberlândia a única representante do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba na listagem. O reconhecimento do município acaba por impulsionar o crescimento de estabelecimentos como o Don Steak. “Em 2025, crescemos 20% em relação ao ano anterior e conseguimos a abertura de uma segunda loja no mesmo segmento, fechando o ano com um resultado muito positivo”, avalia Gomes.

Quem também encerrou o ano com saldo positivo impulsionado pelo turismo gastronômico foi o empresário Gledson Carvalho dos Reis. No centro do seu negócio está o café, mas não um café comum. A história começa em 1928, quando sua família iniciou o cultivo em Poços de Caldas (MG), em uma região de formação rochosa originada por um vulcão há muito tempo extinto.
Esse território singular, marcado por solo rico em minerais, altitude elevada e grande amplitude térmica, confere ao café características naturais que definem um terroir diferenciado, responsável por bebidas de alta qualidade, com doçura acentuada, complexidade aromática e acidez equilibrada.
Durante décadas, a produção foi destinada exclusivamente à exportação. Foi apenas em 2013 que a família decidiu dar um passo além, criando e registrando oficialmente a marca Café Vulcão de Minas. A partir daí, o diferencial do território deixou de ser apenas um atributo agrícola e se transformou em experiência compartilhada.
Sob a condução da quarta geração, o negócio conecta produção, origem e consumo. Além da produção agrícola, a família investiu na abertura de cafeterias em Olímpia (SP) e Barretos (SP), estrategicamente instaladas dentro de grandes resorts. O vulcão, que é elemento central da narrativa, funciona como porta de entrada: desperta curiosidade, atrai o visitante e conecta o público com aquilo que vem do campo.
Mesmo em um cenário desafiador para o setor da cafeicultura, marcado pela pressão de custos e pelo aumento expressivo do preço do café verde, o negócio manteve trajetória de crescimento. O desempenho foi sustentado por um consumidor mais seletivo e consciente, que valoriza origem, rastreabilidade e história, entendendo que o café especial é resultado de uma cadeia cuidadosa e qualificada.
“Para 2026, estou com a expectativa de uma boa produção de café na nossa propriedade e de poder expandir as opções para os clientes, com diferentes graus de torra, além de assinaturas e drip coffee”, projeta Reis.

Gastronomia e oportunidades
Para o turismólogo e docente do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Barretos (SP), Lutfi El Jamel Neto, o crescimento do turismo gastronômico no interior paulista e mineiro não é um fenômeno isolado nem passageiro. Trata-se de um movimento consistente, que nasce da combinação entre identidade cultural e estratégia territorial. “No interior de São Paulo, por exemplo, o turismo gastronômico tem se fortalecido de maneira muito significativa, impulsionado por um movimento que combina tradição, inovação e afetividade”, afirma.
Segundo ele, as cidades do interior passaram a compreender a gastronomia como um elo direto entre o visitante e o território. “As cidades do interior têm valorizado, cada vez mais, os sabores regionais como a culinária caipira, as quitandas artesanais, os cafés especiais, produção rural familiar, além dos festivais gastronômicos que trabalham com pratos históricos”, explica. “É através do paladar que o turista vivencia essa memória afetiva, reconhece a identidade local e passa a se interessar por toda a cultura daquele território.”
Lutfi destaca que “diversos fatores explicam o crescimento do turismo gastronômico no interior”, entre eles “a valorização do produto local, impulsionada por um consumidor que busca autenticidade e deseja provar alimentos que carregam a história da região e de suas produções artesanais”. Soma-se a isso “o resgate das tradições familiares, com receitas que atravessam gerações, vindas de avós, festas religiosas e modos de preparo centenários”, além da “expansão das rotas turísticas temáticas, como o Caminho do Café, o Caminho da Cachaça, a Rota do Queijo Artesanal e a Rota Caipira, que organizam e fortalecem a oferta regional.”
Os efeitos dessa dinâmica se refletem diretamente na economia local. “O impacto econômico do turismo gastronômico é direto e significativo”, afirma Lutfi. “Quando um destino se fortalece, pequenos produtores passam a vender mais, seja diretamente ao turista ou por meio de restaurantes e empórios que valorizam produtos locais”. Restaurantes familiares também se beneficiam: “ganham visibilidade, atraem novos públicos, profissionalizam seus serviços e ampliam sua capacidade de atendimento”. Ao mesmo tempo, ocorre a geração de empregos em diversas frentes.
Além do impacto econômico, o turismo gastronômico cumpre um papel central na preservação cultural. Fortalecer a identidade por meio da comida é, segundo ele, uma forma de preservar a história, que pode falar sobre o clima, o tipo de solo, os ciclos das colheitas, as influências indígenas, africanas e europeias, os costumes familiares e até a religiosidade local.

Desenvolvimento regional
Quando iniciativas como essas encontram apoio financeiro adequado, o impacto extrapola os limites do próprio negócio e passa a reverberar em toda a região. O turismo gastronômico, ao conectar produção local, experiência e identidade territorial, depende de uma estrutura capaz de sustentar crescimento, atravessar ciclos econômicos e transformar boas ideias em empreendimentos sólidos.
É nesse ponto que o cooperativismo de crédito exerce um papel estratégico. Todos os empreendimentos destacados têm em comum a relação com a COCRED, que atua como parceira do desenvolvimento ao oferecer soluções financeiras alinhadas à realidade do campo, do comércio e dos pequenos e médios negócios. Crédito para investir, capital de giro para manter operações, apoio na gestão do fluxo de caixa e proximidade no atendimento são elementos que garantem estabilidade e permitem planejamento de curto, médio e longo prazo.
Na prática, quando um produtor consegue estruturar sua propriedade para receber visitantes, quando um restaurante mantém sua equipe, amplia instalações ou qualifica o atendimento, a engrenagem econômica local entra em movimento. Gera-se emprego, renda e circulação de recursos, fortalecendo cadeias produtivas que orbitam em torno desses negócios. O sucesso individual passa a ter efeito coletivo.
Esse ciclo virtuoso ajuda a consolidar destinos, atrair turistas e valorizar aquilo que é produzido localmente, transformando sabores em identidade e identidade em desenvolvimento.
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